Introdução à Parte II



O estabelecimento e a consolidação do Tahuantinsuyo em prazo inferior a um século só foi possível graças à extrema uniformidade dos modos de produção e das formas de estruturação social adotados em praticamente todas as regiões do Altiplano Andino desde muito antes da chegada da etnia Inca à região de Cusco (como vimos, por herança de incontáveis etnias e Estados Imperiais anteriores, entre eles os Puquina, Huari e Chimú).

Desta forma, coube à etnia hegemônica, agora a Inca, para garantir condições sem igual de expansão e consolidação de seu domínio imperial, principalmente organizar e administrar de forma centralista e despótica as etnias subjugadas e absorvidas, mantendo intactas suas formas de produção social e econômica e não oferecendo nenhum aporte cultural específico - isto é, não criando nada mas apenas redispondo o já existente em seu próprio benefício.

Num movimento que podemos chamar próprio do Estado e, neste caso, um Estado Imperial, pois como Louis Althusser28 nos ensina, "o Estado é explicitamente concebido como um aparelho repressivo. O Estado é uma 'máquina' de repressão que permite à classe dominante (...) assegurar a sua dominação sobre a classe (dominada), para submetê-la ao processo de extorsão (...) O papel do aparelho repressivo do Estado consiste essencialmente, como aparelho repressivo, em garantir pela força - física ou não - as condições políticas de reprodução das relações de produção, que são em última instância relações de exploração" (grifos e parênteses meus).

Na busca do retrato antropológico do Tahuantinsuyo, na primeira parte deste trabalho foi feito o registro histórico do longo processo através do qual aquela sociedade chegou a ser o que foi.

Como lembrou Claude Lévi-Strauss29, "a História não está ligada ao homem nem a nenhum objeto particular. Ela consiste, inteiramente, em seu método, cuja experiência prova que ela é indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou não-humana. Portanto, longe de a busca de inteligibilidade levar à História como seu ponto de chegada, é a História que serve de ponto de partida para toda a busca de inteligibilidade. Tal como se diz de algumas carreiras, a História leva a tudo mas com a condição de se sair dela" (grifos meus).

Agora, então, para que ultrapassemos a história do Tahuantinsuyo e possamos fazer uma análise global do Estado Imperial Inca e de sua praxis socioeconômica, é preciso identificar os diferentes fatores que atuaram como condicionantes dialéticos da organização e das transformações vividas por aquela sociedade.

Para que possamos distinguir, nas palavras de Darcy Ribeiro, as "três esferas básicas da realidade social, a saber: a adaptativa, a associativa e a ideológica".

Deixemos que o antropólogo brasileiro nos explique30: "O sistema adaptativo compreende o conjunto de práticas através das quais uma sociedade atua sobre a natureza, no esforço de prover sua subsistência e reproduzir o conjunto de bens e equipamentos de que dispõe. O sistema associativo compreende o complexo de normas e instituições que permite organizar a vida social, disciplinar o convívio humano, regular as relações de trabalho e reger a vida política. Finalmente, o sistema ideológico é representado pelos corpos do saber, das crenças e dos valores gerados nos esforços adaptativo e associativo (...). O sistema adaptativo tem como conteúdo essencial a tecnologia; o associativo encerra como elemento básico, nas sociedades complexas, a forma de estratificação social em classes econômicas; e o ideológico tem como componentes cruciais os corpos de saber, de valores e de crenças desenvolvidos no esforço de cada grupo humano para compreender sua própria experiência e organizar a conduta social" (parênteses meus e grifos do autor).

Vejamos assim, visando vislumbrar, definir, entender e associar estes três sistemas, os principais traços econômicos e culturais do Tahuantinsuyo, de forma a podermos recompor e tornar para nós inteligível a dinâmica realidade antropológica daquele que foi, até onde se tem conhecimento, o maior Estado Imperial americano pré-colombiano.

Pois, como sintetizou em janeiro de 1960 Claude Lévi-Strauss31, na aula inaugural da cátedra de Antropologia Social do Collège de France, os fatos de que se ocupa a Antropologia dizem também respeito a ciências específicas, como "(...) ciência econômica, direito e ciência política. Todavia, estas disciplinas se aplicam a fatos que estão mais próximos de nós e, por conseqüência, têm um interesse mais privilegiado. Digamos que a Antropologia os apreende ou em suas manifestações mais longínqüas ou desde uma perspectiva mais geral. Deste último ponto de vista, nada útil pode fazer a Antropologia sem colaborar estreitamente com as ciências sociais particulares; mas estas, de seu lado, não poderiam ter pretensões de generalidade sem o concurso do antropólogo, o único capacitado para proporcionar-lhes repertórios e inventários que tenta manter completos" (grifo meu).




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