

Transporte e urbanismo
no Tahuantinsuyo

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Em todo o Tahuantinsuyo predominava a aldeia como forma básica de moradia e urbanismo: eram ayllus com casas dispostas irregularmente e distantes umas das outras de acordo com as inclinações naturais do terreno ou dos rios e riachos que cortassem a região. Assim, a quase totalidade da população não vivia nas llactas ("cidades planejadas"), as quais tinham ruas traçadas e retas, construções bem demarcadas próximas umas das outras e forte esquema de segurança e vigilância, razão pela qual até hoje a grande massa dos habitantes andinos vive em condições análogas à dos antigos ayllus.
Ayllu contemporâneo nas cercanias de Cusco
Cusco, de acordo com todas as fontes, foi ela mesma planejada e reconstruída após Túpac Yupanqui sob a forma de um puma, animal deificado nas regiões andinas: as linhas principais do corpo do puma teriam sido compostas pelas principais ruas e riachos da cidade, enquanto sua cabeça era conformada pelo templo-fortaleza de Saqsayhuamán.
Cusco, em forma de puma
O sistema viário do Tahuantinsuyo muito provavelmente aproveitou conquistas técnicas já existentes desde a fase Tiahuanaco-Huari, assim como as inovações da etnia Chimú, na costa, aperfeiçoando os métodos de construção de pontes e de pavimentação. Abertas preferencialmente em linha reta, sempre que possível, para encurtar distâncias e diminuir o período de tempo necessário para a circulação de produtos, pedestres e informações (transportadas pelos chasquis, mensageiros do Estado), as estradas serviam a dois troncos principais: um longitudinal de serra, ligando a região colombiana de Pasto à cidade de Cuyo (hoje Mendoza, na Argentina), e um longitudinal de costa, ligando Tumbes (hoje na fronteira Peru/Equador) à região do rio Maule (no hoje Chile). Para tanto, as estradas desciam, subiam, volteavam morros, bordejavam despenhadeiros, atravessavam rios e cortavam altiplanos e desertos, com largura de 2,5 a seis metros (alguns autores chegam a mencionar 16 metros de largura) e muitas vezes pavimentadas com pedras ou cascalho, ladeadas por andenes de contenção ou cultivo e apresentando pontes de madeira ou palha trançada. Escadas com centenas de degraus de pedra, rampas com drenagem de águas pluviais, muros de arrimo de pirca ("pedra e barro"), sinalização de madeira ou de adobe para evitar extravio dos transeuntes (especialmente nas regiões desérticas ou desabitadas) e postos de controle nos pontos estratégicos faziam deste sistema viário um recurso de inestimável importância para a administração e a política expansionista do Tahuantinsuyo. Por esta razão as estradas eram, sem exceção, propriedade do Estado e unicamente utilizadas a seu serviço. Neste sentido, Waldemar Espinoza Soriano90 frisa que "os caminhos (...) não eram abertos nem mantidos com fins de 'unificação nacional', para propiciar o desenvolvimento de um mercado interno ou para que as pessoas ou camponeses pudessem comodamente comunicar-se com seus vizinhos. Ao contrário, o Estado restringia o trânsito das pessoas. O ideal era que nascessem, vivessem e morressem em sua própria terra natal. Quando havia movimentos migratórios, era porque o Estado os projetava e permitia, após minuciosos estudos sobre sua conveniência ou inconveniência (grifo e parênteses meus).
Trecho de estrada estatal ("Trilha Inca", em Machupicchu)
Posto de controle em estrada (Pisa'q)
Maria Rostworowsky de Diez Canseco91 lembra que "é possível que, assim como a maior parte do sistema organizativo andino, os tambos tivessem existido em épocas anteriores ao largo de rotas de peregrinação às huacas e aos santuários, para abrigar os fiéis que vinham de paragens longíncuas. Talvez uma rede de albergues tenha sido usada pela hegemonia Huari e também não se pode descartar a possibilidade de que o poderoso senhor de Chimor dispusesse de pousadas para facilitar o trânsito de seus principais através de seus estados". De qualquer maneira, e conforme Victor Angles Vargas92, no Estado Imperial Inca "os tambos foram povoações importantes, eixos econômicos circundados por densos núcleos demográficos: grandes alojamentos para hospedar dezenas de milhares de migrantes, com enormes depósitos de alimentos, roupas, armas e ferramentas, compreendendo consideráveis extensões de terras agrícolas cuidadas por populações inteiras (...) Tambo-caminho-transeunte foi o trinômio básico para a constituição do Império Incaico; foram categorias materiais conexas e inseparáveis, elementos interdependentes que modularam uma tríade de apoio ao mecanismo governamental. A agricultura intensiva, somada a uma boa e drástica organização social, permitiu a geração de (imensos) excedentes de produção, situação que incitou os Inca a se lançar em campanhas de expansão territorial, só possibilitada graças aos bons caminhos e aos gigantescos depósitos de alimentos, os quais permitiram a mobilização maciça de soldados, operários e agricultores. A mobilização dos exércitos teria sido impossível sem depósitos de alimentos e sem largos caminhos. A administração governamental em um território com mais de um milhão de quilômetros quadrados foi eficaz graças aos tambos, aos caminhos e à planificação de um imenso organismo social com funcionamento sincronizado" (grifo e parênteses meus).
Tambos na região de Cusco ![]() Os tambos também foram fundamentais durante a Conquista (embora, desta vez, para os invasores): acostumados com as guerras européias de devastação, onde a terra conquistada nada mais oferecia de imediato senão construções fumegantes e campos arrasados, os espanhóis com rapidez puderam ocupar todo o território do Tahuantinsuyo graças às provisões encontradas a cada jornada de algumas dezenas de quilômetros.
Neste sentido, como registra Pedro Cieza de León93, "saído o senhor de Cusco, ia em uma grande ordem. Embora fossem com ele trezentos mil homens, iam em suas jornadas de tambo em tambo, onde encontravam provimentos para todos sem que nada faltasse e muitas armas e muitos sapatos e roupas para a gente de guerra e mulheres e índios para servi-los e levar suas cargas de tambo em tambo, onde sempre encontravam o mesmo abastecimento de víveres e provisões" (grifos meus). Mas se tambo-caminho-transeunte compuseram a trilogia de constituição e poder do Estado Imperial Inca, como quer o etnohistoriador peruano Angles Vargas, as llactas foram os núcleos medulares do poder estatal: delas emanava todo o poder, em nome de Cusco, pois nelas viviam os aposunas, os tucricuts, os quippucamayoc, as forças e lideranças militares e a nobreza regional de cada etnia conquistada.
Rua principal da llacta de Ollantaytambo
Bairro do intihuatana, em Pisa'q
Bairro da Qallaq'asa, em Pisa'q
Eram também localizadas em pontos estratégicos, como a llacta de Pisa'q, a qual abrangia visualmente toda a imensidão de um dos vales do Vilcanota e muito provavelmente foi construída no governo de Yáhuar Huácac (segundo Pedro Sarmiento de Gamboa94). Mas a llacta que tem recebido maior destaque, principalmente por ter sido a mais bem preservada no correr da História, foi a de Machupicchu, situada a cerca de 100 quilômetros de Cusco. Erigida no topo de uma montanha, a 2.300 metros acima do nível do mar (altitude média) e a 350 metros acima do rio Urubamba e da povoação de Águas Calientes (até o começo deste século, Maquinayuq), Machupicchu foi revelada a público apenas em 1911 d.C.
Vista geral de Machupicchu
A murada do setor urbano de Machupicchu
Todavia, ignora-se o verdadeiro nome que esta llacta teve durante o Tahuantinsuyo, pois sua existência não é mencionada em detalhes por nenhum dos registros espanhóis dos Séculos XVI, XVII ou posteriores. Waldemar Espinoza Soriano96 enfatiza que apenas a panaca de Pachacútec conhecia Machupicchu, pois "a construíram em parte dos terrenos pertencentes ao patrimônio particular (deste Inca) para escapar e refugiar-se em seu interior em situação de crise, caso voltasse a se repetir uma invasão como a que eclipsara seus antepassados em Taipicala. (E) por isto, do ponto de vista defensivo, a llacta de Picchu era uma das mais efetivas do Incário" (parênteses meus). Já Victor Angles Vargas97 adota outra posição e diz que "sua origem dorme nas regiões obscuras da pré-história. Cremos que seu desenvolvimento foi milenar (...) Quando dizemos que Machupijchu é uma cidade inca, queremos referir-nos ao fato de sua etapa culminante corresponder ao horizonte Inca (...) As construções em Machupijchu, e em especial os palácios, correspondem ao estilo Inca, assim como muitas mostras de cerâmica" ali encontradas (parênteses meus). Seja qual for sua origem, contudo, e pelo fato de ter sido preservada da destruição pelos espanhóis, Machupicchu ilustra bastante bem os princípios de urbanização adotados no Tahuantinsuyo para suas llactas.
Porta de entrada do setor urbano de Machupicchu
Enquanto o setor agrícola é basicamente constituído por andenes de cultivo ou contenção e raros vestígios de casas de pirca e adobe, além de um cemitério, do posto de vigilância e das casas dos guardiões da cidade, o setor urbano abriga o Templo do Sol, o intihuatana, o setor de cárceres, o "bairro industrial", outro cemitério, praças dispostas geometricamente, habitações, moradias para os Sacerdotes do Sol, fontes litúrgicas, aposentos especiais para a nobreza e o que se supõe tenha sido um mausoléu, para a guarda dos mallquis.
Vista geral de Machupicchu, com o setor agrícola ao fundo
Mas terá sido Machupicchu apenas uma, entre muitas cidades? Para responder a esta questão, dada a ausência de documentos específicos que reconstituam melhor sua origem e finalidade, só cabe compará-la com as formas de urbanização praticadas nas principais llactas do Estado Imperial Inca. E assim, quando se procede a esta comparação, comprova-se uma forte identificação destas formas com o que parece ter predominado no planejamento e construção de Machupicchu. Pedro Sancho de la Hoz99, soldado de Francisco Pizarro, descreve Cusco afirmando que "a maior parte das casas são de pedra e as outras têm a metade da fachada de pedra; há muitas casas de adobe e estão feitas em perfeita ordem". Em Machupicchu, em que pese a reduzida dimensão da llacta (não mais de 30 hectares), estão de pé 216 construções inteiramente erigidas com pedra: 80 de quatro paredes (talvez casas de moradia), 80 de três paredes (talvez oficinas e locais de trabalho), 40 recintos de dois pisos (talvez armazéns) e 16 construções de vários tipos (templos, o intihuatana, fontes etc), predominando a ordem entre as construções. Em Cusco, como em outras cidades, a praça principal era privativa da nobreza e considerada local sagrado; em Machupicchu, a praça principal fica exatamente no centro do setor urbano e ao lado do que se supõe terem sido o Tempo do Sol (a única construção semicircular de Machupicchu) e os aposentos do Sumo Sacerdote do Sol, construções às quais só se tem acesso por uma única porta.
A porta de acesso ao Templo do Sol
Uma das ruas de Machupicchu
Nas serras, por exemplo, transportava-se água por centenas de quilômetros através de aquedutos de pedra, canais subterrâneos e complicados sistemas de sifonamento para regiões mais elevadas, obtendo-se assim condições para a agricultura e sobrevivência do ser humano, dando-se o mesmo nas regiões áridas da costa, nas quais se construíam canais e reservatórios. Desta forma, se em Cusco e outras llactas os banhos rituais eram parte integrante do calendário religioso da elite, razão pela qual apenas no Q'oricancha existiam cinco fontes, segundo inúmeros cronistas espanhóis (entre outros, Miguel Cabello de Valboa100, Pedro Pizarro101, frei Martín de Murúa102 e Felipe Guamán Poma de Ayala103), em Machupicchu isto também se deu: seu setor de fontes apresenta 16 fontes dispostas sucessivamente em planos escalonados, o que permitia que a primeira se interligasse à última através de pequenos canais vazados na pedra para jorrar água.
O setor de fontes de Machupicchu
E se em todas as llactas do Tahuantinsuyo a elite incaica fazia construir prisões para a detenção e eventual execução de criminosos, fossem eles transgressores do direito público, fossem eles acusados de atos de traição ou rebeldia contra o Sapainca e seus representantes, em Machupicchu existe um amplo setor de cárceres, com aposentos para emparedamento dos convictos: paredes com nichos abertos apenas de um lado e uma minúscula janela na parede oposta; posto ali de pé, o condenado era fechado com adobe ou pirca, deixando-lhe apenas espaço para respirar e eventualmente receber alimentos e água. Nestes locais também era praticado o que Guamán Poma de Ayala104 chama de "maniatamiento" (chanchay thocllahuan chipanay villaconanpac, ou "sujeição e manietamento para que fale"): tortura realizada com a submissão do acusado ao ajoelhamento com os braços passados por cavidades nas muradas de pedra e então atados, onde permanecia até confessar seu crime.
Setor dos cárceres em Machupicchu, vendo-se os locais de manietamento
Há outra razão para que em Machupicchu tenham sido encontrados apenas 173 cadáveres e, destes, pelo menos 150 femininos: a população das llactas incaicas era flutuante, já que sua permanência dependia das decisões do Estado. Os únicos indivíduos que permaneciam longo tempo na mesma llacta eram as acllas das acllahuasis, de acordo com cronistas como o corregedor espanhol Juan Pólo de Ondegardo106 e o clérigo mestiço Cristóbal de Molina (El Cusqueño107), por convir aos interesses imperiais que ali permanecessem preparando bebidas (chicha) e fiando, tecendo ou confeccionando roupas. Corroborando esta hipótese, basta lembrar que também no setor incaico de Pachacámac (que teve uma das maiores acllahuasis do Tahuantinsuyo) 90% dos cadáveres desenterrados por pesquisadores eram de mulheres. Porque, na verdade, as llactas incaicas eram acima de tudo um misto de centro administrativo, local de produção artesanal, depósito regional de alimentos ou produtos e núcleo residencial dos nobres e principais burocratas do Estado Imperial Inca, vitais às práticas estatais expansionistas e de administração. Nelas nem mesmo se desenvolviam atividades de mercado, pois a elite de Cusco não se interessava pelo comércio ou intercâmbio de produtos com etnias e regiões vizinhas, razão pela qual os jatúnruna odiavam viver nelas. Basta ver que, após a queda da elite incaica e o desmoronamento do Tahuantinsuyo, toda a população que habitava as llactas fugiu para a região serrana, abandonando-as, voltando a viver em ayllus e mantendo seus costumes milenares até onde lhes foi possível, excessão feita àquelas cidades que passaram a ser habitada pelos espanhóis, como Cusco, Jauja, Vilcas, Tumbebamba, Quito e Cajamarca, entre outras. Afinal, os lideres despóticos continuavam, a despeito de agora não mais falarem quechua ou aymara nem cultuarem Huiracocha e Inti, o Deus do Sol. |