Capítulo 10


O sistema administrativo
e os agentes do poder
no Tahuantinsuyo





Os burocratas estatais, produtores indiretos da economia do Estado Imperial Inca, contavam-se aos milhares por todo o Tahuantinsuyo, alguns permanentes e outros nomeados por tempo determinado.

Do Sapainca aos curacas de menor poder, passando por apocunas e tucricuts, articulava-se uma hierarquia pensada em detalhes e sustentada por um efetivo militar considerável, de tal forma que administrar um Estado continental como o Tahuantinsuyo fosse tarefa possível.



Os apocunas ou aposuyos
Em todas as suas decisões, especialmente após Pachacútec e Túpac Yupanqui, o Sapainca era auxiliado por quatro homens de sua inteira confiança e reconhecida competência estratégica, política e econômica.

Representando os suyos (regiões climáticas ou administrativas), estes apocunas ou aposuyos permaneciam ao lado do Sapainca para auxiliá-lo em todas as decisões de importância. Nomeados entre a alta nobreza e excepcionalmente entre a nobreza das regiões conquistadas, os apocunas viviam em Cusco e não eram detentores de cargo hereditário ou vitalício, sendo antes merecedores da nomeação por lealdade e comprovada competência pessoal.

A eles se reportavam diretamente os tucricuts ("governadores de província"), apoiados nos tucurucuits ("espiões"), de tucuy ricuc, "aquele que olha tudo", segundo Garcilaso de la Vega76, e nos quippucamayoc ("manejadores de quippus"), o que permitia não só ter constante informação sobre tudo o que ocorria no Tahuantinsuyo como facilitava a implantação imediata de todas as decisões tomadas pelo Sapainca.



Os tucricuts
Governadores do Sapainca em cada huamani ou província, os tucricuts se reportavam diretamente aos apocunas e representavam o poder central da etnia cusquenha em todos os seus aspectos: civil, militar, penal, econômico e administrativo. Sua função também não era hereditária nem vitalícia, mas sim nomeada diretamente pelo Sapainca entre membros de diversas etnias (após consulta aos apocunas).

Lembra Waldemar Espinoza Soriano77 que os tucricuts "prática e realmente controlavam a totalidade do que concernia a estes cinco aspectos da vida social (civil, militar, penal, econômico e administrativo), estando sob seu mando inclusive os jatúncuracas regionais, as acllahuasis e as colônias de mitmas. Como conseqüência, tinham um papel importantíssimo a cumprir. Inspecionavam, vigiavam, fiscalizavam e resolviam tudo, de maneira que a seu cargo estavam a abertura, construção, funcionamento e conservação de caminhos, pontes, tambos e collcas, assim como a administração de chasquis, mitas e censos de recursos naturais e de povoação (...) Até mesmo o casamento de pessoas que estivessem sob sua jurisdição (...) Também tinham sob sua responsabilidade um seleto grupo de quippucamayoc prontos a informar-lhes qualquer coisa, graças a seus registros minuciosos. Os tucricuts só consultavam ou transmitiam seus informes ao apocuna ou aposuyo a quem se reportavam e, raras vezes, mas sempre que necessário, ao Sapainca" (parênteses meus).

Além de receber inspeções regulares dos taripacocs ("visitadores imperiais") e sofrer a contínua ação dos tucurucuits ("espiões"), os tucricuts iam a Cusco uma vez por ano para prestar contas de sua gestão e reafirmar sua lealdade ao Sapainca; detinham imensos privilégios decorrentes de seu cargo e na prática diminuíam o poder local dos jatúncuracas e cápacs, pois mantinham seu próprio conjunto de funcionários e representavam o poder central em todas as instâncias da sociedade: juízes criminais, carrascos para execução, administradores de diversos níveis, guardiões de divisas e fronteiras, mantenedores de pontes, depósitos, caminhos e andenes etc.



Os quippucamayoc (ou quippucamayos)
Estes funcionários do Estado dominavam o segredo da linguagem dos quippus (em quechua, a palavra quippu significa precisamente "nó"), a qual permanece indecifrada até hoje. Já que transmitiam oralmente seu conhecimento e prática a herdeiros e aprendizes, pois tinham recebido da mesma forma os conhecimentos de seu ofício, nada ficou registrado sobre o código de notação estatística dos quippus .


Ilustração 38
Um quippu



Evidências arqueológicas indicam que os
quippus eram manejados desde a etapa de Tiahuanaco-Huari, mas foi durante o Tahuantinsuyo que tiveram notável impulso, dada a necessidade da etnia Inca de administrar regiões cada vez mais vastas e longínquas.

Segundo o arqueólogo e antropólogo alemão Horst Nachtigall78, nos nós dos cordões de variados comprimentos, materiais e cores que compunham os quippus, "se podia contar e registrar não apenas homens e animais mas todos os tipos de produtos. Cada cordão constava de nós de forma determinada que tinham valor numérico - 1 a 9 - e valor de cifra - unidade, dezena, centena, milhar e dez mil. Além disso, os cordões eram de cores variadas, as quais tinham um significado variável conforme o tema que registravam. Cordões amarelos podiam significar milho e, em tempo de guerra, ouro capturado ao inimigo; os cordões vermelhos poderiam se referir ao soberano, os negros se relacionarem com o tempo e os verdes significarem grão na colheita num censo agrícola ou, em caso de estatística militar, o exército inimigo. Através das notícias orais e com as informações proporcionadas pelos cordões, e mediante o conhecimento das condições e características regionais e tribais, os funcionários do (Sapa)Inca podiam reconstruir quadros bastante precisos da situação. Mas evidentemente não podiam expressar nomes nem acontecimentos precisos, para os quais não havia códigos, já que os quippus expressavam apenas números e não letras ou palavras" (parênteses meus).

Além disto, cada quippu variava seu código de cores, de material e de comprimento dos fios ou significado dos nós de acordo com a região onde era utilizado; assim, mesmo se decifrado o código dos quippus de Arequipa ou Carangue, por exemplo, não se saberia por isto o segredo dos de Quito ou Cajamarca - o que obrigava o Estado a manter quippucamayoc especializados em todos os códigos de registro e verdadeiras "quipputecas" para arquivo permanente e memória histórica.

Pois cada quippu retratava minuciosamente, sempre dentro do sistema decimal de contagem, e entre outros aspectos da economia andina,
a população de cada suyo, huamani e curacazgo,
a divisão e totalização desta população em nove diferentes grupos de idade (um dia a um ano, um a cinco anos, cinco a nove anos, nove a 12 anos, 12 a 18 anos, 18 a 25 anos, 25 a 50 anos, 50 a 80 anos e mais de 80 anos), além dos inválidos, anciãos, órfãos etc.
a divisão e totalização desta população por classe social e sexo,
a divisão e totalização desta população por sua especialização produtiva (camponeses, artesãos, yanas, yanayacos, pinas etc.),
o total de mitayos em atividade,
o tipo e quantidade de terras agricultáveis e de pastoreio,
o tipo e quantidade de produtos agrícolas colhidos,
o tipo e quantidade de cabeças de gado (camelídeos) em criação,
o tipo e quantidade de produtos artesanais produzidos,
o tipo e quantidade de matéria-prima existente,
os totais de casas, pontes, canais de irrigação e templos,
o número de efetivos militares e material logístico.


Mas os quippus nada registravam que não fosse numérico e, por isto, nunca serviram de registro histórico ou para a preservação de conceitos, visando a ampliação organizada de conhecimentos (que é a base de toda ciência).

Como explica Garcilaso de la Vega79, os quippucamayoc "escreviam com aqueles nós todas as coisas que se podiam indicar com números (...) mas o conteúdo das mensagens, nem as palavras dos raciocínios, nem outro fato da história poderiam dizer através dos nós, porque as orações, ordenadas de viva voz ou por escrito, não podem ser representadas por nós, porque o nó representa o número mas não a palavra (...) Para remediar esta falta, os amautas, filósofos e sábios, cuidavam de por em prosa os contos históricos, curtos como fábulas, para que fossem contados às crianças, aos jovens e à gente rústica do campo, para que, passando de boca através das idades, se conservassem na memória de todos (...) Por outro lado, os poetas, haravicus, compunham versos curtos e elaborados, nos quais encerravam a história ou o pedido e a resposta do rei. Em resumo, diziam em verso o que não podiam por em nós" (parênteses meus).



Os cápacs, jatúncuracas e curacas
A imensa burocracia oficial do Tahuantinsuyo, a despeito de contar com centenas de cápac apo huatac ("juízes criminais"), hunacaucho ("guardiões de fronteiras"), cápacnan suyoyoc ("administradores de caminhos"), chaca suyoyoc ("administradores de pontes") e chacnay camayoc ("executores das sanções penais"), nunca prescindiu do serviço dos chefes locais dos ayllus, sayas, huamanis e reinos, os curacas ("o maior entre os seus", em quechua) e os cápac curacas ou jatúncuracas ("grande chefe de curacas").

Entre os curacas se praticava a mesma regra de sucessão que entre os Inca: não havia primogenitura, a despeito de se tentar manter o poder nas mãos de uma mesma linhagem, e o que se buscava acima de tudo era a capacidade pessoal de liderança e organização: o herdeiro co-governava com o curaca, como no caso do Sapainca e pelas mesmas razões.

Os mais poderosos e com maior poder sobre vastas regiões eram os jatúncuracas ou cápac curacas, verdadeiros reis de Estados regionais ou de sayas inteiras; os menos poderosos, às vezes com mando apenas sobre um ayllu, recebiam o nome de curacas, subordinando-se ou não a algum jatúncuraca ou cápac curaca; todos, porém, deviam visitar Cusco uma vez por ano para prestar fidelidade ao Sapainca e dar-lhe contas de suas atividades, além de enviar seu filho herdeiro e co-regente a viver por certo tempo em Cusco, de modo a assimilar o modo de vida e o comportamento dominante da etnia Inca e retornar à sua terra como fiel e capaz servidor da elite do Tahuantinsuyo.

No dia-a-dia comunal competia aos curacas:
repartir os tupos de terra entre todas as unidades domésticas;
organizar o cultivo de tupos pertencentes a viúvas, órfãos e anciãos sem prole, assim como dos membros do ayllu que estavam fora em missão oficial, militar ou cumprimento de mitas;
dirigir a limpeza dos canais de irrigação;
supervisionar as fronteiras das terras do ayllu;
organizar e dirigir a participação dos jatúnrunas em mitas;
definir e conduzir festas religiosas e cultos propiciatórios;
decidir sobre as mingas necessárias para melhorias coletivas;
no caso de colheitas insuficientes, provocadas por acidentes naturais ou meteorológicos, satisfazer as necessidades das unidades domésticas afetadas através de excedentes armazenados em suas próprias pirquas ("depósitos de víveres").

Salvo exceções (em geral, no caso de rebeldes), os curacas passaram a representar o poder central de Cusco em cada região do Tahuantinsuyo, vindo a se transformar com o tempo em verdadeiros senhores de suas comunidades (principalmente nos últimos tempos do Estado Imperial Inca, quando os registros dos fatos da época apontam de sobejo o início do estabelecimento de uma estrutura socioeconômica análoga à verificada na Europa Feudal dos Séculos XIV, XV e XVI, como por exemplo ocorreu no processo de submissão da etnia Huaylla por Huayna Cápac: o Sapainca, para conseguir seu intento, doou terras a duas esposas secundárias extraídas desta etnia, obrigando os moradores dos ayllus ali residentes a trabalhar principalmente para estas duas mulheres nobres e suas famílias e não mais para, em primeiro lugar, como até então vigorara, seus próprios ayllus e o Estado).

No Quadro XVII, enfim - baseado em Jürgen Golte80 - se demonstra o que deve ter sido o processo milenar de entrega, pelos ayllus de todas as etnias, do conjunto de tarefas administrativas da coletividade a uma das unidades do clã, a do curaca:
A. num primeiro momento, duas unidades domésticas se auxiliam de forma recíproca no trabalho agropastoril (através do ayni), permitindo aos envolvidos uma boa produção e garantindo sua subsistência;
B. num segundo momento, no qual passam a interatuar inúmeras unidades domésticas (famílias-simples e famílias-compostas), o sistema de reciprocidade se torna mais e mais complexo mas ainda se mantém a divisão de trabalho e da produção;
C. com o tempo, a administração da produção termina recaindo em uma unidade doméstica que já goza de diferenciação no sistema de parentesco do clã (talvez por descender diretamente dos fundadores da etnia) e obriga a divisão de trabalho, agora não mais por tempo ou força de trabalho disponível e, sim, por especialização administrativa;
D. com o aumento das unidades domésticas envolvidas e a crescente complexidade das tarefas administrativas, o líder administrativo se afasta cada vez mais da produção direta e ocupa o seu tempo apenas com a produção indireta: administrar as terras em rodízio, determinar as obras públicas necessárias - minga - e supervisionar a distribuição dos bens agropecuários produzidos comunalmente.

Desta forma, o curaca passa a viver da produção social direta, à medida que a comunidade trabalha os seus tupos, e a ter privilégios junto ao ayllu: sua casa era maior, podia praticar a poligamia, homens e mulheres (yanas) o serviam e era ajudado em suas tarefas por um yanapaque ("ajudante"), geralmente um irmão ou parente próximo, o qual o substituía temporariamente em caso de doença ou ausência.



Quadro XVII
O processo de centralização administrativa do ayllu no curaca
Observação: As linhas vermelhas representam as atividades de produção direta,ao passo que as azuis indicam atividades de produção indireta (notadamente a administrativa, no caso).


O aparelho burocrático historicamente assim nascido em todas as regiões andinas foi integralmente utilizado pela etnia Inca na organização do
Tahuantinsuyo, visando administrar o conjunto da produção social e diminuir a importância e o prestígio autônomo de cada chefe local: os curacas tiveram seu poder político e militar sensivelmente reduzido, passaram a se reportar diretamente aos tucricuts em quase todos os aspectos da organização social e, no fim das contas, pouco mais faziam senão atuar como funcionários burocráticos, verdadeiros agentes do poder do Sapainca, dos apocunas e dos tucricuts junto aos ayllus, permitindo a imensa produção estatal em mitas agrícolas, pastoris, mineiras, têxteis, artesanais e de construção de obras públicas.

Isto evidentemente gerava descontentamento junto a jatúncuracas e curacas, os quais viam seu passado de cápacs e descendentes de cápacs desprezado e inúmeras vezes os levava a se rebelar contra a nobreza cusquenha, como aconteceu com os Tanquigua, Chachapoya, Colla, Pomaauca, Cañares e tantos outros (levando também inúmeras etnias, em especial os Huanca, a auxiliar os espanhóis após 1532).

Parte destas rebeliões era neutralizada pela nobreza Inca através da doação de presentes valiosíssimos em gado, roupas, yanas, coca, jóias e artefatos de alta artesania, além de darem aos jatúncuracas e cápacs esposas cusquenhas e/ou tomarem suas irmãs ou filhas como esposas.

Quando tais recursos não obtinham êxito e nem uma visita do cápac ou jatúncuraca a Cusco resolvia, sobrava o recurso da invasão militar.



O exército imperial
O serviço militar era inicialmente uma forma de mita, mas após Túpac Yupanqui formaram-se agrupamentos de militares profissionais, desligados das atividades de produção direta; alguns destes agrupamentos chegaram a compor castas guerreiras permanentes e hereditárias, como as dos Charca, Caracara, Caranga, Chuy e Chicha (no Collasuyo), completamente desobrigadas de qualquer outro tipo de trabalho.

A vida castrense parece ter permeado tão completamente as culturas desenvolvidas nos Andes Centrais, que inúmeras são as palavras quechua e aymara compiladas referentes a funções, postos e equipamentos militares; por outro lado, as recompensas para mitas militares e os exércitos profissionais eram altíssimas, de acordo com todos os registros.

Com três missões fundamentais (o aumento do território, através de conquistas; a defesa da soberania nacional contra invasores de regiões fronteiriças; e a manutenção da ordem estabelecida pela etnia Inca), o exército do Tahuantinsuyo tinha dois constituintes distintos:
um, variável, composto por levas de mitas militares e por população recrutada durante as missões de conquista e subjugação;
outro, permanente, integrado por oficiais de alto coturno, quer extraídos da etnia Inca e de panacas nobres, quer das etnias que se notabilizaram como castas guerreiras leais ao Sapainca.

As tropas, assim como nas mitas, se dividiam segundo sua etnia e eram lideradas por seus respectivos chefes, um de cada saya (ou parcialidade) do clã; as unidades ficavam aquarteladas em acampamentos e galpões nos principais centros administrativos do Estado, nunca em terras úteis dos ayllus, e eram terminantemente proibidas de saqueá-los ou invadi-los - a não ser em caso de batalha, quando os saques e as destruições eram inevitáveis, a despeito de não incentivados e mesmo punidos em caso de exagero.

As tropas recebiam alimentos dos armazéns estatais, além de roupas, folhas de coca, bebidas e objetos de valor, sempre de acordo com o posto ou nível do presenteado; além disto, junto à população mais simples dava boa reputação ser soldado, razão pela qual no correr do Tahuantinsuyo as hostes militares aumentaram muito com o recrutamento de voluntários que desejavam se profissionalizar. Basta lembrar que frei Martin de Murúa81 registra que "o exercício da milícia" era muito admirado na sociedade Inca, figurando como "o mais grave e nobre de todos".



As mitmas ou mitmaes
Finalmente, o que pode parecer ter sido apenas outro recurso de expansão da produção: as mitmas ou mitmaes (de mitmat, "homem mudado, transportado" ou "forasteiro"), traslados planejados de populações inteiras para regiões menos desenvolvidas ou com alto grau de rebeldia e sublevação.

Todavia, as mitmas eram acima de tudo poderosos instrumentos de administração política do Estado e de diminuição da resistência à nobreza de Cusco.

Em suas novas terras de assentamento, os participantes das mitmas recebiam terras para construir casas, cultivar produtos e criar gado, reproduzindo ali sua estrutura social e produtiva original; mas como respondiam diretamente ao tucricut da província para a qual haviam sido trasladados e continuavam pertencendo à sua etnia de origem, pelo ius sanguinis ("direito de sangue"), isto criava problemas para os curacas e cápacs locais, que mais uma vez viam seu poder diminuído e o da nobreza de Cusco reforçada.

Sobre este aspecto, Waldemar Espinoza Soriano82 é bastante claro: "no Tahuantinsuyo, onde, antes de tudo, imperavam as relações de parentesco e não as territoriais, os participantes das mitmas, por mais longe que houvessem sido trasladados e por mais gerações que houvessem transcorrido, não perdiam sua etnicidade (ou nacionalidade). Isto porque, nas formações andinas, a etnicidade ou nacionalidade dependia da linhagem, do parentesco e do sangue e não do lugar onde viviam ou morriam. Assim, o tataraneto de um mitmat nascido em Cusco mas habitando em Cajamarca na segunda metade do Século XVIII, em que pese haverem nascido nesta cidade seu pai, avô e bisavô, continuava sendo tão cusquenho quanto havia sido seu tataravô ali chegado na segunda metade do Século XV. Nas formações socioeconômicas andinas, a nacionalidade ou etnicidade se adquiria pelo ius sanguinis (direito de sangue) e não pelo ius solis (direito de solo). (Assim), por imperar o ius sanguinis, os mitmats continuavam pertencendo à sua etnia de origem, continuando sob a jurisdição e o poder de seus curacas nativos (parênteses meus).

Pachacútec iniciou a disseminação de mitmas, mas foram Túpac Yupanqui e Huayna Cápac que as levaram ao extremo, o que permitia ao Estado realizar o traslado de famílias-simples e compostas, às vezes até de ayllus inteiros, mas nunca apenas de homens ou mulheres solteiros; por esta razão, a população forçada ao deslocamento era composta por indivíduos das mais variadas idades, acompanhados de seus pertences, ferramentas e objetos do dia-a-dia, dando origem a núcleos populacionais inteiramente novos em seu local de destino.

De forma e com objetivos análogos aos descritos por Darcy Ribeiro83: "As situações que se apresentam, neste caso, são de núcleos em expansão em contextos correspondentes, sobre os quais eles se difundem e exercem sua influência deculturativa e aculturativa. Tais núcleos podem ser únicos e ampliarem-se homogeneamente no correr do tempo. Ou serem múltiplos e atuarem simultaneamente, formando distintas configurações de acordo com as situações de conjunção e as características originais dos contextos sobre os quais atuam. Em qualquer caso, operam como cabeças do mesmo processo civilizatório quando se fundam na mesma tecnologia básica, no mesmo sistema de ordenação social e em corpos comuns de valores e crenças que difundem entre os povos engajados em suas redes de dominação" (grifo meu).

Por isto, se as mitmas permitiam ao Estado Imperial
instalar colônias de aproveitamento de recursos naturais em regiões conquistadas e ainda pouco desenvolvidas,
expandir o nível de qualidade da produção artesanal, através do convívio forçado dos artesãos trasladados com a população local,
controlar jazidas, águas, pastos e rebanhos conquistados a outras etnias,
diminuir o total populacional de áreas excessivamente povoadas,
aumentar a população servidora de huacas ("tumbas") e
instalar guarnições fronteiriças, com a precisa missão de conter a invasão de outros povos,

também (ou principalmente) serviam para
alocar grupos em Cusco para o serviço direto ao Sapainca, ao Culto do Deus-Sol e à nobreza cusquenha,
despovoar terras para entregá-las ao Sapainca, ao culto do Deus-Sol ou aos nobres de Cusco,
permitir o desterro de etnias e grupos perigosos ou subversivos,
desmembrar reinos e senhorios poderosos em núcleos menores de população (como os Pasto, etnia rebelde, que foram deslocados da região de Quito para o lago Puquinacocha, hoje Titicaca, numa operação que superou os 2.500 quilômetros de distâncias)
criar assentamentos fiéis a Cusco em áreas sublevadas, em geral na periferia do Tahuantinsuyo, disseminando a ideologia da etnia hegemônica no seio da população local.




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