

A organização social
do trabalho
no Tahuantinsuyo

|
A força de trabalho estava socialmente organizada no Tahuantinsuyo sob várias formas: Salvo a mita e as duas últimas da lista acima, todas estas formas de organização da força de trabalho parecem ter sido exercidas na região andina desde os tempos de Chavín, apontando sociedades com um escasso desenvolvimento de suas forças produtivas: sem desenvolvimento tecnológico (pois nenhuma cultura andina chegou a conhecer a roda e o ferro antes da Conquista), persistia a organização clânica e sua estrutura ancestral de produção, como o ayni e a minga, adotadas e fortalecidas pela etnia Inca em suas práticas hegemônicas de controle e ampliação do Estado a partir de Huiracocha, pai de Pachacútec.
Ressalvadas as duas primeiras formas de trabalho da lista acima, entendíveis pela sua própria descrição, e os yanas ou yanayacos e pinas, anteriormente explicados quando da análise da hierarquia social no Estado Imperial Inca, vejamos as formas de organização social da força de trabalho no Tahuantinsuyo. Nada mais era senão o intercâmbio de força de trabalho entre os grupos domésticos que compunham um ayllu (famílias-simples ou compostas), concretizando-se através da prestação de serviços por um indivíduo ou por grupos a um indivíduo ou a grupos e devendo ser "pago" com força de trabalho equivalente a ser dispendida em datas, locais e tarefas determinadas. Qualquer pessoa do ayllu podia se negar ao ayni, mas sempre sob pena de não poder pedir a mais ninguém ajuda sob a forma de ayni. Entretanto, a despeito de poder ser entendido como "ajuda recíproca", o ayni escondia um toma-lá-dá-cá sem fim, num negócio perpétuo sempre feito à mercê de interesses ou conveniências ditadas pelo momento e pelos vários envolvidos: o beneficiário do ayni, além de assumir a responsabilidade de "pagá-lo" futuramente ( em condições ajustadas no momento mesmo do contrato), oferecia alimento, bebida e folhas de coca (em quantidades variáveis caso a caso) aos prestadores dos serviços durante toda a duração do trabalho.
Eventualmente, a minga também era realizada quando do casamento de membros do ayllu (na construção de sua casa, e.g.) ou no cuidado das terras de órfãos, inválidos, viúvas, enfermos e anciões do ayllu; diferentemente do ayni, contudo, nestes casos a minga não compunha dívida nem obrigava "pagamento" de espécie alguma. As mingas eram fundamentais para manter vínculos de solidariedade e permitiam que o ayllu sobrevivesse, razão pela qual aqueles que não o cumpriam eram expulsos e não tinham outra alternativa senão tornar-se mendigos, meliantes ou yanas a serviço de alguém ou do Estado.
Esta forma de organização social da força de trabalho já havia sido largamente desenvolvida no Tahuantinsuyo, onde estava integralmente sob tutela estatal. Através da mita e utilizando milhares de mitayos, ou participantes das mitas, o Estado construía estradas, pontes comunais, depósitos de víveres ou produtos artesanais (collcas), pousadas (tambos) e templos regionais de culto, além de obter rendas (sempre em produtos) pelo cultivo de suas terras e o pastoreio de seu gado. Não esqueçamos de que, como já vimos anteriormente, o Estado era também proprietário de terras e do que delas se retirava, com vistas a acumular excedentes essenciais para suas práticas de conquista, ampliação e consolidação de domínio em regiões cada vez mais vastas. Então, na verdade, a mita foi uma ampliação, em nível do Estado Imperial, do ancestral costume da minga. Neste sentido, o rumeno John Murra67, antropólogo e ex-presidente da Sociedade Norte-americana de Etnologia, lembra que "quando Cusco elaborou o sistema estatal de mita, tomou por modelo as obrigações recíprocas comunais conhecidas e compreendidas por todos" (grifo meu). Assim, milhares de homens casados, de 15 a 50 anos de idade e recrutados em seus ayllus, se revezavam em turnos de trabalho por todo o Tahuantinsuyo a serviço do Estado, em troca de alimentos, bebidas, roupas, coca e produtos artesanais; assim, os mitayos eram os verdadeiros produtores diretos estatais no Tahuantinsuyo, incentivados pelo Estado e eventualmente recompensados com distinções do próprio Sapainca ou da elite cusquenha. As mitas eram minuciosamente planificadas pelo Estado em cada ayllu, curacazgo, saya, huamani e suyo, de forma que os clãs, etnias, senhorios e reinos competissem entre si na qualidade e quantidade do total produzido; e para planificar, acompanhar, registrar, avaliar e intervir na produção, o Estado mantinha uma burocracia imensa mas muito ágil, os produtores indiretos do Tahuantinsuyo. (Não se deve confundir o uso de multidões de homens casados para trabalhar nas mitas, ou trabalho sob direção estatal, com as mitmas - ou mitmaes -, as quais veremos adiante, ocasião na qual o Estado trasladava populações inteiras com fins econômicos mas notadamente políticos: neste segundo caso, ao contrário das mitas, deslocava-se famílias completas - homem, mulher, filhos, agregados familiares, animais, ferramentas, armas e demais pertences -, quando não ayllus inteiros.) Toda a produção era acompanhada e controlada pelo Estado através dos chasquis (em quechua de Cusco, ou cachac, em quechua da costa), corredores treinados que percorriam o Tahuantinsuyo de ponta a ponta transportando informações, ora de viva voz, ora com o auxílio de quippus (cordões com nós para registros estatísticos, como veremos adiante em detalhes). Privativo do poder central, este sistema de informação era tão eficiente que os chasquis, revezando-se ao correr, levavam apenas sete dias para percorrer os 2.000 quilômetros que separavam a cidade de Cusco e a fronteira Norte do Tahuantinsuyo (hoje, na divisa do Equador com a Colômbia). A mita não era servidumbre ou escravidão; ao contrário, os mitayos eram livres e remunerados por seu trabalho; e como durante sua permanência nas mitas o ayllu coletivamente se responsabilizava pelo trabalho direto em seus tupos, o "pagamento" recebido nas mitas se transformava em economia familiar. Estavam livres do trabalho nas mitas as mulheres, as crianças, os anciões, os inválidos, os quippucamayoc ("os que manejavam quippus"), os mercadores, os curacas, os membros da nobreza em geral e a etnia Inca de Cusco.
Na região dos Charca, por exemplo, os militares profissionais tinham grande influência política e já conformavam castas, legando cargos e posições a seus filhos, como se tornou comum após Túpac Yupanqui nos territórios Chuy, Caranga, Charca e Caracara.
Estes jatúnruna também pagavam tributos a seus curacas e ao Estado, mas apenas em espécie e nunca em força de trabalho aplicada em tupos, e viviam quase exclusivamente nas regiões da costa centro-norte do Tahuantinsuyo (notadamente Huancavillca, hoje Huancavélica, no Peru), a despeito de registros indicarem a existência de rotas terrestres de comércio entre o altiplano peruano-boliviano (a região do lago Puquinacocha) e a cidade de Cusco, como nos informa Maria Rostworowsky de Diez Canseco68. Por transitar constantemente por senhorios ou reinos e dominar várias línguas, os mercadores eram muitas vezes utilizados como espiões (tucuruicuts) ou agentes políticos a serviço de jatúncuracas, tucricuts e da própria nobreza Inca. Por isto integravam um grupo rico e poderoso, que mais recentemente tem sido alvo de intensos estudos por parte de antropólogos e historiadores especializados na cultura andina.
Menos por sua beleza, porém, e acima de tudo por sua destreza manual e capacidade produtiva na tecelagem e artesania, de acordo com cronistas como o padre espanhol Miguel Cabello de Valboa69, o frei Martin de Murúa70 e o mestiço Felipe Guamán Poma de Ayala71. Jovens de todo o Tahuantinsuyo (inclusive filhas e irmãs da nobreza cusquenha e regional) viviam nas acllahuasis de todos os centros administrativos do Estado. As mais famosas foram a de Cusco, a da ilha Coati e a de Huanucopampa, que chegavam a ter até 2.000 mulheres enclausuradas, mas contam-se às dezenas as acllahuasis do Estado Imperial Inca: Carangue, Quito, Latacunga, Jatúncanar, Tumibamba, Pumpu, Tumbes, Caxas, Pisa'q, Huancabamba, Cajamarca, Vilcas, Cochabamba, Huamachuco, Jatúnhuayllas, Tarmatambo, Jatúnjauja, Paramonga, Huaytara, Coropuna, Pachacámac, Lunahuana, Huarcu, Chincha, Ollantaytambo, Vilcanota, Ayaviri, Paria, Jatúncolla, Chucuito, Chuq'iapu (hoje La Paz, na Bolívia), Jatúncana, Charcas, etc. Todas as etnias e estratos sociais eram obrigados a contribuir regularmente com um certo número de meninas, cuja idade flutuava de oito a dez anos. Mas não bastava querer para adentrar uma acllahuasi: as jovens eram selecionadas por funcionários burocráticos, os apopanaca, que regularmente percorriam os ayllus, e deveriam ter dotes comprovados de habilidade na fiação, tecelagem ou confecção de roupas, além de arte culinária, pois tais produtos eram fundamentais à economia política do Estado. Com eles a nobreza cusquenha brindava curacas, jatúncuracas e cápacs aliados, reforçando laços de interesse político e ampliando sua esfera de influência. O Sapainca dispunha diretamente de todas as acllas, utilizando-as de forma variada conforme os interesses do Estado e dos grupos de poder; assim, as acllahuasis não eram comunidades monacais ou a serviço da religião, como já se supôs, mas principalmente centros produtores artesanais altamente especializados a serviço do poder do Estado, de acordo com John Murra72.
Como registrou o cronista índio Juan Santacruz Pachacuti Yamqui Salcamayhua73, dependendo da classe social da qual eram originárias, as acllas eram distribuídas por distintas categorias nas acllahuasis, desempenhando diferentes funções sociais e produtivas: Como nos ensina Waldemar Espinoza Soriano74, "a cooperação sincronizada das acllas com o tempo não apenas gerou o aumento de suas forças produtivas mas terminou por superespecializá-las em suas várias técnicas ocupacionais: lavadeiras, tintureiras, fiandeiras, tecelãs, costureiras de roupas etc., o que faziam de forma artesanal e manual. As fiandeiras manejavam com habilidade rocas e ossos para produzir ora fios grossos, ora finos, sempre segundo o que fosse pré-estipulado; as tecelãs conheciam estupendamente os segredos e técnicas de elaboração de tocapus: motivos geométricos ornamentais entretecidos, cada um dos quais simbolizava algo e que ao mesmo tempo adornavam os uncus do soberano e demais nobres da etnia Inca. Nisto, punham todo o seu engenho artístico (...) Contudo, é impossível qualificá-las como 'escravas', pois nas acllahuasis elas tinham muita comodidade e porque ali permaneciam encerradas até ñustas e pallas (princesas e senhoras nobres) da casta Inca. Na verdade, poderíamos chamá-las de mulheres cativas" (último parênteses do autor e grifo meu). Pois, resumindo com Maria Rostworowsky de Diez Canseco75, seu "papel real era servir de operárias dedicadas a produzir têxteis para o Estado (...) Outra tarefa era a preparação maciça de bebidas indispensáveis à celebração dos ritos e cerimônias, como o cumprimento dos ritos de reciprocidade. Um terceiro objetivo das acllahuasis era estabelecer um 'depósito de mulheres' para ser outorgadas pelo (Sapa)Inca quando a reciprocidade exigia um intercâmbio de mulheres ou o soberano desejava distinguir a tal ou qual chefe com uma mulher entregue por ele mesmo (...) Ter várias mulheres era considerado prova de autoridade e prestígio de um homem, sobretudo se a mulher tivesse sido outorgada pelo (Sapa)Inca ou seu representante. Buscava-se com afinco esta distinção, pois significava paga por serviços e aumento da força de trabalho no lar. Além disto, e de fato, a mulher outorgada pelo soberano tinha mais status do que qualquer outra" (grifo da autora e parênteses meus).
|