Capítulo 8


A vida cotidiana
no Tahuantinsuyo





As atividades da vida cotidiana no Tahuantinsuyo eram predefinidas rigorosamente para cada habitante, do Chile ao Equador: sexo, idade e estrato ou classe social estabeleciam desde o início da vida (e para todo o sempre) o conjunto de papéis familiares, produtivos e sociais a ser desempenhados pelos jatúnruna e pela elite, numa rigidez de costumes e imutabilidade de práticas apenas alterável nos poucos casos em que serviços prestados à elite cusquenha faziam com que indivíduos nascidos simples nos ayllus se destacassem e recebessem galardões especiais, como títulos nobiliárquicos, terras, esposas e servidores, assumindo tarefas administrativas ou políticas e escapando das atividades braçais mais comuns do dia-a-dia.

De outra forma, não teria sido possível implantar e administrar em menos de um século um Estado Imperial com mais de um milhão de quilômetros quadrados de superfície, pelo menos de 100 a 200 etnias diferentes e uma população que ultrapassava os doze milhões de habitantes na época da Conquista.



I

Inúmeros aspectos cotidianos do Tahuantinsuyo eram multisseculares na região andina quando do estabelecimento da hegemonia incaica, tendo sido apenas adotados, mantidos ou aperfeiçoados pela elite cusquenha, donde também decorreu a facilidade que esta elite encontrou em impor relativa homogeneização de comportamento cultural e produtivo em todo o Tahuantinsuyo, visando a uma mais perfeita administração política e econômica da produção social.

Para tanto, houve a necessidade de definir, estabelecer e fazer valer política e ideologicamente variados parâmetros de diferenciação sociocultural e profissional entre os habitantes de todo o Estado Imperial Inca, articulando uma rede complexa de atividades e comportamentos referendados (porque desejados, na verdade) pela etnia dominante.

A primeira e mais clara divisão foi a estabelecida entre a etnia Inca e a nobreza de privilégio, de um lado, e todos os outros habitantes do Tahuantinsuyo, de outro.

Enquanto os membros da elite (Inca e de privilégio) não se dedicavam à produção agropastoril e artesanal, sendo preparados exclusivamente para dirigir e comandar os aspectos militar, judicial, religioso, político e administrativo do Estado - pois apenas para eles existiam escolas (yachay huasi, "casa do ensino") -, o resto da população era minuciosamente controlado, supervisionado e dirigido de acordo com o papel produtivo, o estrato social e a faixa etária a que pertenciam; desta forma, o total de população existente em cada região podia ser registrado em quippus pelos burocratas estatais e seu direcionamento para atividades específicas podia ser realizado pelo Estado de acordo com os interesses da elite a cada momento.

Embora a divisão por idades diferisse bastante entre as múltiplas etnias, Waldemar Espinoza Soriano57 informa que a elite cusquenha tentou uniformizar em todo o Tahuantinsuyo as faixas etárias como se vê no Quadro XV.


Quadro XV
Faixas etárias da população do Tahuantinsuyo

Idade
Homens
Mulheres
De 01 dia a 01 ano
Guagua quiraupicoc - bebês de peito
Llullu guagua huarmi - bebês de peito
De 01 a 05 anos
Llullollocac huarnacuna - fora da produção, apenas brincando
Llucac huarmiguagua - como os meninos, apenas brincando
De 05 a 09 anos
Pucllacoc huarnacuna - ajudante dos pais em tarefas leves ou cuidando de irmãos menores
Pucllacoc huarmi huarna - o mesmo que os meninos ou servindo de companhia para senhoras
De 09 a 12 anos
Tocllayoc huarnacuna - caça de aves, pastoreio, coleta de lenha e pequenas atividades
Pagua pallac- coleta de ervas ou flores para tingimento e eventual vítima de sacrifício
De 12 a 18 anos
Mactacuna - caça de aves, preparação de carnes, participação em aynis e mingas (se já casado) e em serviços ao curaca
Rotuscatasca - Pastoreio, fiação, tecelagem, tarefas agrícolas nas terras de senhores e nobreza (cápacs e jatúncuracas)
De 18 a 25 anos
Sayapayac - Chasquis, pastores, soldados, mitayos etc.
Acllas dadas em casamento a nobres e outros privilegiados
De 25 a 50 anos
Aucacamayoc - Mitas agrícolas, artesanais e mineiras, soldados e participação em mitmas
Aucacamayo huarmi - Tecelãs de cumbi (tapeçaria) para o Estado
De 50 a 80 anos
Puricmachu - Lenhadores, serviçais de limpeza em casas nobres, camareiros, porteiros, dispenseiros, lacaios da aristocracia e quippucamayoc
Payaccuna - Tecelãs de cumbi (tapeçaria) para o Estado, porteiras, dispenseiras, camareiras, cozinheiras, aias e criadas nas acllahuasis
Mais de 80 anos
Roctomachu - Em geral descansavam, mas os que ainda podiam trançavam esteiras e cuidavam de cuys ou aves. Eram preferidos como porteiros de casas nobres e acllahuasis. Eram os narradores de lendas e mitos, compondo o conselho de anciões da comunidade a que pertenciam
Punocpaya - Usualmente não faziam nada, mas as que ainda podiam se dedicavam a pequenos afazeres domésticos, eram tecelãs especializadas, acompanhantes de mulheres da nobreza, porteiras ou dispenseiras das casas da aristocracia regional e estatal



Em uma categoria à parte e independente de faixa etária (mas nunca da classe ou do estrato social), estavam englobados os doentes crônicos, aleijados, surdos, mudos, anões, débeis mentais (opas) e loucos de ambos os sexos. Entre estes, todos os que podiam ser de alguma maneira produtivos eram utilizados: anões como comediantes, surdos como
quippucamayoc ou tecelões, aleijados e aleijadas como trabalhadores artesanais, mudas como cozinheiras da nobreza e corcundas como pagens das famílias nobres - pois se acreditava que Eqecco, deus da boa fortuna, também teria sido corcunda.

Em geral estes homens e mulheres eram doados pelo Estado a famílias da elite, para desempenhar suas funções como yanas.

E nas escolas para a elite, segundo o padre Blas Valera58, ensinava-se poesia, música, filosofia, astronomia, hidráulica, técnicas de produção de metais, cerâmica e têxteis, regras básicas de política e da arte de governar, estratégia e táticas militares, moral, religião e direito; no que diz respeito ao último tópico, vigorava no Tahuantinsuyo um código de direito consuetudinário (fundado nos costumes) com inúmeras normas que regulamentavam a vida civil, sancionavam infrações e dispunham penas.

Neste sentido, as preocupações morais e legais no Estado Imperial Inca iam bem adiante da trilogia "não mentir, não roubar, não ser preguiçoso" (ama llulla, ama sua, ama qella), tida por muitos como a síntese do pensamento moral e jurídico incaico e suposta como indício da justiça que imperava naquela sociedade. Antes, contudo, tal trilogia moral tinha por principal papel permitir a manutenção da ordem e da produção pela etnia dominante.



II

A ausência de métodos agropecuários ou industriais em escala, dado o desconhecimento do ferro e da roda, obrigava a utilização de mão-de-obra cada vez mais extensiva; assim, era fundamental ao Estado a contínua expansão demográfica, visando o aumento ininterrupto da população produtiva.

Na elite que vivia nas llactas os casamentos eram acertados e realizados ainda na infância (entre cinco e nove anos), com a coabitação se dando apenas a partir da idade adulta, mas nos ayllus homens e mulheres em geral já se casavam entre 15 a 18 anos ou com menor idade ainda: o casal coabitava por um período mais ou menos longo, buscando constatar se no convívio diário haveria ou não compatibilidade. Este período de vida conjunta se denominava tincunacuspa ou servinacuy no Sul e pantanaco no Norte, e ao seu final, caso assim o casal o decidisse, era celebrado o casamento e entregues à nova parelha tupos para cultivo.

A este respeito, embora Waldemar Espinoza Soriano59 afirme que tal coabitação se dava "sob a estrita vigilância de seus pais", deixando crer que a coabitação não envolvia vida sexual e, portanto, que até o casamento não haveria filhos, Maria Rostworowsky de Diez Canseco é explícita em seu estudo La mujer em la epoca prehispánica60: "em alguns cronistas se menciona o hábito do servinacuy, ou 'matrimônio em experiência', com a possibilidade do rompimento da união e o retorno da mulher, com seus filhos, ao seio do ayllu de origem" (grifo meu).

A versão da pesquisadora parece ser a mais plausível, pois tal hábito (e a possibilidade de filhos, gerados por mulheres ainda muito jovens) ainda se mantém em várias regiões do mundo andino.

Para o casamento, a mulher já deveria ter tido a menarca (primeira menstruação) e o varão teria de estar na adolescência; além disto, segundo alguns autores, preferia-se que a mulher fosse alguns anos mais velha que o homem.

Com o casamento ambos adquiriam maioridade e podiam participar de todas as atividades do ayllu, como os ritos, o ayni e a minga, passando a viver em casa própria construída ao lado da dos pais (ou não).

E já que somente após a maioridade os homens podiam ser recrutados para as mitas estatais e os casais podiam ser enviados para as mitmas, entende-se o interesse do governo central em que todos se casassem o mais cedo possível e logo tivessem filhos.

Imediatamente após a reunião legal, o que se dava sempre em datas pré-definidas pelo Estado (após o estabelecimento hegemônico do Tahuantinsuyo, pois segundo o padre espanhol Bernabé Cobo61 até então os costumes associados às cerimônias matrimoniais e às uniões sexuais variavam de região para região), o novo casal iniciava a procriação: os filhos eram bem vindos e necessários não somente para ajudar o quanto antes possível no trabalho doméstico, artesanal, na terra e no pastoreio, como para servir de garantia para a velhice e o cuidado futuro das múmias (mallquis) de seus pais geração após geração. Mesmo assim, talvez devido a uma alta taxa de mortalidade infantil, não há registros de famílias com prole numerosa no Tahuantinsuyo.

Os casais estéreis, por sua vez e pelos mesmos motivos, com freqüência adotavam órfãos.

Os casais eram sempre monogâmicos e em geral bastante estáveis, embora fontes espanholas registrem a existência, no Tahuantinsuyo, da possibilidade de separação legal (exclusivamente por motivos graves), eventualmente seguida de novo casamento: assim, permitia-se a realização de segundas núpcias, mas somente após transcorrido um longo período de separação ou enviuvamento.

Com relações matrimoniais endogâmicas entre membros das famílias-compostas, como já vimos atrás, cada ayllu era uma verdadeira teia de parentesco consangüíneo e não apenas totêmico ou simbólico; desta forma, desde cedo tornou-se necessária uma classificação rigorosa das relações de parentesco, de forma a facilitar a vigência de práticas sociais e de convívio decorrentes destas mesmas relações.

Como predominava no mundo andino o sistema de descendência paralela, relacionando diretamente os filhos ao pai e as filhas à mãe (costume que em muitas regiões persistiu até as primeiras décadas do Século XIX, atribuindo ao filho o sobrenome e os bens do pai e às filhas o sobrenome e os bens da mãe), esta classificação denominava os parentes femininos e os masculinos através dos nomes empregados numa mesma geração, numa ordenação comprovada pelos vocábulos quechua registrados nos dicionários dos Séculos XVI e XVII e que pode ser vista no Quadro XVI.

O fato de a "irmã do homem" receber o nome de pana, donde o termo panaca para delimitar as linhagens nobres, deu margem a que muitos autores defendessem a hipótese da prática exclusiva de matrilinearidade no mundo andino; todavia, e a despeito do irmão da mulher (tio materno) ter papel preponderante nos ritos de iniciação tanto dos meninos quanto das meninas, isto ainda está por ser comprovado, pois a nomeação cruzada (separando parentes da linhagem do homem dos da linhagem da mulher) parece indicar a prática predominante da descendência paralela.

Por fim, outro registro que igualmente sugere a não existência exclusiva de matrilinearidade no Tahuantinsuyo é o que Garcilaso de la Vega62 faz no terceiro tomo de seus Comentários reales de los Incas, sobre o matrimônio do Sapainca com sua irmã: "e para que o herdeiro do reino fosse herdeiro legítimo por pai e por mãe, como aqueles reis se acostumaram a fazer, (Huayna Cápac) casou com sua irmã" (grifo e parênteses meus).

Quadro XVI
Níveis de parentesco em um ayllu

Parentes distantes
Caru ayllu
Tataravô (paterno ou materno)
Machuypa machun
Tataravó (paterna ou materna)
Payaypa payan
Bisavô (paterno ou materno)
Yayapa machun
Bisavó (paterna ou materna)
Mamapa payan
Avô (paterno ou materno)
Machu
Avó (paterna ou materna)
Payu
Pai
Yaya
Mãe
Mama
Filho (do pai)
Churi
Filha (do pai)
Ususi
Filho ou filha (da mãe)
Huahua
Neto ou neta
Hahua
Bisneto ou bisneta
Huillca
Tataraneto ou tataraneta
Chupuyu
Tio (irmão do pai)
Yaya
Tia (irmã do pai)
Caca
Tia (irmã da mãe)
Mama
Irmão do homem
Huauque
Irmão da mulher
Tura
Irmã do homem
Pana
Irmã da mulher
Ñaña
Sobrinho do homem
Concha
Sobrinho da mulher
Mulla
Primo em primeiro grau (pelo pai)
Sispa huauque
Prima em primeiro grau (pelo pai)
Sispa pana
Primo em segundo grau (pelo pai)
Ccaylla huauque
Prima em segundo grau (pelo pai)
Ccaylla pana
Primo em terceiro grau (pelo pai)
Caru huauque
Prima em terceiro grau (pelo pai)
Caru pana
Primo em primeiro grau (pela mãe)
Sispa tura
Prima em primeiro grau (pela mãe)
Sispa ñaña
Primo em segundo grau (pela mãe)
Ccaylla tura
Prima em segundo grau (pela mãe)
Ccaylla ñaña
Primo em terceiro grau (pela mãe)
Caru tura
Prima em terceiro grau (pela mãe)
Caru ñaña




III

A situação da mulher no Tahuantinsuyo também era definida por normas e papéis de convívio e desempenho. A menina era considerada mulher após a menarca e a cerimônia correspondente da ultrapassagem da meninice, o quicochico, na qual o irmão da mãe desempenhava papel de destaque, passando então a tasque ("mulher jovem"), sipas ("mulher em idade de casar") e huarmi ("mulher adulta").

As meninas pequenas, antes da idade de fiar e tecer, ajudavam em casa coletando vegetais para o preparo de tinturas, cuidando de irmãos menores e desempenhando outras tarefas leves; na idade adulta, porém, tomavam parte ativa no trabalho agrícola, correndo a seu cargo a semeadura das novas searas (pelo simbolismo envolvido), assim como também atuavam na construção de casas para jovens casais (através da minga).

Amamentavam os filhos até a idade de dois anos, embora raras vezes os pegassem no colo ("para não ficar chorões"), e se abstinham de relações sexuais em todo este período ("a criança enfraqueceria ou escassearia o leite"); ao fim do segundo ano desmamavam as crianças e, no caso dos meninos, era então feito o primeiro corte de cabelos: o irmão da mãe era o primeiro a usar um tumi ritual para este corte, sendo então seguido por outros membros da família.

E em muitas regiões do mundo andino os cronistas registraram a existência de mulheres curacas; neste sentido, Maria Rostworowsky de Diez Canseco63 lembra que "o poder não era um privilégio dos varões no mundo andino. Em numerosas regiões existiam senhorios comandados por mulheres curacas. O costume foi mantido até o início da República, com a diferença de que, no Vice-Reinado, o poder efetivo era exercido pelo marido. (Além disso, na região de Piura), as capullanas (etnias Catacaos, pré-incaica) não somente exerciam o poder como inclusive podiam se desfazer de um marido e casar-se com outro. (Martín de) Murúa conta ter visto um daqueles maridos abandonados queixar-se amargamente de sua desgraça. Durante o Vice-Reinado teve continuidade a existência das Capullanas mas, igualmente às curacas, eram os maridos quem governavam em seu nome" (grifo e parênteses meus).



IV

A bebida predileta em todo o Tahuantinsuyo foi a aca, asua ou upi (chamada chicha pelos espanhóis, palavra de origem antilhana); Garcilaso de la Vega64 registra ter existido uma chicha de teor alcóolico muito elevado, a uiñapu, que chegou a ser proibida pelos Inca.

A chicha era em geral preparada com grãos de milho, a despeito de poder ser feita de mandioca, quínua ou outros vegetais. Os grãos eram colocados em um local úmido e depois se macerava os brotos que deles saíam (quando se chamava jora); parte destes brotos era então mascada, para a saliva acelerar a fermentação, e a pasta assim obtida era fervida por horas em panelas de barro; após fria (quando recebia o nome de sarayumbia), era posta para descansar por dias seguidos. Quanto maior fosse o repouso da mistura, maior o seu grau alcóolico, e os sedimentos que restavam no fundo do urpo recebiam o nome de mamaasua ou acamama (ou "madre de la chicha"), pois eram utilizados para fermentar futuras porções da bebida.

A chicha era consumida em imensa quantidade em cerimônias e festas em todas as regiões do Tahuantinsuyo, em atividades profissionais como mitas, mingas e aynis - dada a sua qualidade alimentícia e revigorante - , e em ritos religiosos, sendo imprescindível nas ofertas de reciprocidade por parte do Sapainca e da nobreza estatal ou regional.

A tal ponto chegou a necessidade de chicha, que a atividade se tornou especialização profissional: por todo o Estado as acllahuasis produziam quantidades imensas de chicha para atender às necessidades específicas de consumo e retribuição da elite e na costa central e do Norte os chicheros trocavam a bebida por outros produtos, ao contrário dos habitantes da serra, que produziam chicha apenas para consumo próprio.



V

Os jatúnrunas acreditavam que as doenças sempre derivavam de algum ato de bruxaria ou enfeitiçamento, motivado por rivalidades locais, por conflitos interfamiliares, pela transgressão das leis da natureza ou por ofensa dos deuses e seres sobrenaturais que povoavam todas as regiões; nestes casos, tratava-se sempre da perda de camaquem ou princípio vital, como castigo pelo desrespeito.

Em cada ayllu havia um hampicamayoc ("curandeiro") que conhecia a arte de manipular ervas, minerais e partes animais com o fito de curar estados doentios ou pelo menos aliviar seus sintomas, quer através do uso de poções, quer com o concurso de doenças e cantos rituais. Eram em geral camponeses que transmitiam oralmente seus conhecimentos a filhos ou sobrinhos, homens ou mulheres, e uns vieram a ser mais admirados do que outros por sua eficácia. Os Callaguaya, no Collasuyo, e os Huaro, ao Sul de Cusco, por exemplo, gozavam de fama que atravessava fronteiras étnicas e se irradiava por todo o Tahuantinsuyo.

Registra-se também a existência de curandeiros especializados em provocar doenças em outras pessoas, a pedido de interessados. Estes profissionais eram em geral mal-vistos nos ayllus e conheciam o segredo de poções venenosas e alucinógenos (encontrados em cactáceas ou em beberagens compostas, como a ayahuasca, nas regiões do Norte próximas da mata amazônica, feita de duas qualidades vegetais distintas).

Por todo o Tahuantinsuyo praticou-se a trepanação de crânios, em geral com o uso de drogas anestésicas (coca - Garcilaso de la Vega65 registra a palavra cuca em quechua, transformada para coca pelos espanhóis -, bebidas embriagadoras ou beberagens vegetais que faziam adormecer), e a intervenção cirúrgica no corpo para retirada de corpos estranhos (por acidente ou batalha) ou mesmo tumores. Mas não se conheceu, nem sequer se concebeu, a origem patogênica das inúmeras doenças que os afligiam, entre as quais angina, asma, sífilis (iso ou huanti), pneumonia, bócio, catarata, câncer (iscuoncoy), coqueluche, cólicas, convulsões, icterícia, difteria, erisipela, escorbuto, gonorréia (secru), herpes, diarréia, infartos, lepra (llepti oncoy), raquitismo (sittu), corrimentos vaginais, sarna (caracha) e mal-das-alturas (soroche), além de demência, epilepsia, afasia completa, idiotia, mudez e surdez, entre outras enfermidades.

Para todas as doenças existia um vocábulo e conheciam conceitos de enfermidade (oncoy), saúde (calicay), diagnóstico (uncoy risiy), convalescença (alliyaray), vida (causay) e morte (huanuy); mas, conforme suas crenças, todas as causas das doenças derivavam ou do desrespeito às leis da natureza e ofensas aos deuses e seres sobrenaturais ou de atos de vingança por parte de homens e mulheres rivais.



VI

Como muito cedo as crianças deixavam os jogos de infância para ajudar os pais nas tarefas cotidianas da família e do ayllu, não foram muitos, e nem variados, os jogos e diversões praticados no Tahuantinsuyo; de qualquer forma, meninos e meninas costumavam representar ludicamente as atividades adultas de cada sexo, reproduzindo tarefas agrícolas, domésticas, de pastoreio e de caça.

Um jogo era a acutasita, na qual meninos e meninas se agarravam uns aos outros numa longa fila e corriam de um lado para outro volteando obstáculos; tal passatempo pode ter sido a imitação caricata da Danza ritual del Amarú (como os espanhóis a chamaram), dança ritual executada em janeiro na praça principal de Cusco por homens e mulheres das sayas (parcialidades) Anancusco e Urincusco.

O amarú (cobra grande), representado por uma enorme serpente, em alguns locais emplumada, em outros não, e aqui com cabeça de felino ou acolá com cabeça de veado, mas quase sempre alada, era um ser sobrenatural que emergia de covas e cavernas para soltar seu fogo no céu, cruzando-o como cometa; acreditava-se que nestas ocasiões o amarú lutava com outros seres sobrenaturais e as vezes até mesmo caía ferido ao chão, como na região entre Cajamarca e Celendín, onde até hoje se encontra um lugarejo denominado Pampa de la Culebra (ou Amarúpampa), "Lugar da Cobra".

A despeito de não haver registros que permitam supor ter sido universal no Tahuantinsuyo o brinquedo com bonecas, dado o costume andino de não carregar crianças no colo, huacas ("tumbas") escavadas em Chancay evidenciam que ali tal atividade foi comum: bonecas de barro ou de pano, que recebiam o nome de guauachuqui, eram feitas e cuidadas por meninas pequenas, ao feitio de filhos ou filhas.


Ilustração 37
Boneca de pano da região de Cusco (contemporânea)



Dos meninos, aqueles que nos jogos de caça (
chaco) se destacavam no manejo do lihuy ("boleadeira"), eram chamados a ajudar no huarachicuy, ocasião em que os jovens da elite comprovavam seu amadurecimento físico e mental em provas desafiadoras e bastante duras: aqueles que as atravessavam com destreza, recebiam o direito adulto de se casar e exercer atividades militares e administrativas.

Muitos meninos, rapazes e até adultos passavam horas no jogo da pecosita ou pecopapa auqui, uma versão andina da moderna boccia ("bocha"), com bolas de madeira ou borracha (esta última, especialmente entre as etnias perto da selva amazônica) arremessadas em uma cancha de areia ou terra.

Havia também lutas rituais (pucllay) levadas a cabo em dezembro, e mais ainda entre fevereiro e março, mas apenas por jovens jatúnrunas de ambas as sayas: eram lutas verdadeiramente agressivas, que não poucas vezes terminavam com feridos graves ou mortos e constituíam exercícios militares em tempo de paz.

Para os maiores havia um passatempo romântico, o simpasita, que consistia em atar um cordel nos dedos e, conforme o cordão se entrelaçava, tentar saber se a pessoa desejada estava ou não também enamorada.

Finalmente, as fontes registram a existência de um jogo de azar, o huairusita ou pishcasita, muitas vezes praticado nos longos velórios (pishca) de cinco noites, como era costume nos Andes: um dado de osso com cinco faces, cada face com um valor específico, era utilizado para apostas de cuys ("porquinhos-da-índia"), roupas, peças de artesanato e animais, participando dele tanto homens quanto mulheres.




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Capítulo 9
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