Capítulo 3


O processo de formação,
consolidação e desagregação
do Tahuantinsuyo





Segundo Waldemar Soriano Espinoza20, a história do Estado Imperial Inca (Tahuantinsuyo) apresenta uma divisão básica, claramente demarcada por dois períodos distintos: "o primeiro, que abarca aproximadamente desde os fins do Século XII até o ano de 1438, é o tempo das origens e dos sinchis, ou chefes sem conquista rutilante, sem mais domínio senão Cusco e seus entornos; ou, em outras palavras, sem império. A seguir vem o segundo período, desdobrado desde mais ou menos 1438 com (o Inca) Pachacútec e que é a etapa expansiva correspondente à formação, ao desenvolvimento e à consolidação do Estado Imperial do Tahuantinsuyo, através da unificação política do mundo andino. Durou apenas 95 anos, até 1533, ano em que foi destruído pelos espanhóis em colaboração com outras etnias da costa e da serra" (grifos e parênteses meus).

Na verdade, porém, de tão rápidas foram a consolidação e posterior desagregação do Tahuantinsuyo, poderíamos ir além e dividir estas duas etapas em três:

Etapa I (Séc. XII /?1438 d.C.)
Dos emigrantes de Taipicala à consolidação da etnia Inca
Etapa II (?1438/1527 d.C.)
O Tahuantinsuyo, de Pachacútec a Huáscar
Etapa III (1527/1533 d.C.)
A rápida e total desagregação do Tahuantinsuyo, sob Atahuallpa.


Vejamos, então, o decorrer deste processo.



ETAPA I
(Século XII/?1438 d.C.)

Dos emigrantes de Taipicala à consolidação da etnia Inca

O primeiro Inca - Com Manco Cápac teve início (nos fins do Século XII ou no início do Século XIII) o estabelecimento nos Andes Centrais Peruanos da etnia Inca, a qual, através de três séculos e dezesseis líderes sucessivos, formou e consolidou o Tahuantinsuyo (treze Incas chegaram a assumir a liderança da etnia e três foram mortos ou destituídos logo após ou imediatamente antes de assumir o poder, como se vê no Quadro X, no qual os nomes entre parênteses indicam líderes destituídos ou mortos antes ou logo após assumir o poder).


Quadro X
Os sucessivos líderes da etnia Inca
(Séc. XII/1433 d.C.)

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Manco Cápac é um personagem da protohistória andina que se esconde em brumas, em parte por se tentar resumir nele todo o período que permeia a fuga de
Taipicala e o estabelecimento vitorioso de sua etnia no vale de Cusco, em parte porque em torno a ele se construíram lendas e mitos de escondimento da derrota vivida por seus antecessores e de justificação das obras de conquista de seus sucessores.

Os registros da tradição oral, todavia, compilados por inúmeras fontes de épocas e locais distintos, não permitem dúvidas sobre a existência real deste guerreiro, que deve ter levado mais de vinte anos para percorrer os apenas cinqüenta quilômetros que separavam Pacarictampu de Cusco e lançou as bases de sobrevivência de sua etnia pelos Séculos XII, XIII, XIV e início do XV, até se estabelecer e consolidar o Tahuantinsuyo.

A despeito de ter submetido os Sahuasera, os Hualla, os Antasayac e os Alcahuisa, Manco Cápac não pôde fazer o mesmo com outras etnias que ocupavam o local e o reino Ayarmaca, contíguo e impetuoso, desde o começo foi o seu mais encarniçado adversário. Durante toda a sua vida enfrentou Aymarcas e Pinaguas, não conseguindo ampliar seus domínios e vivendo praticamente em Cusco, ao lado de suas mulheres; entre estas destacam-se Mama Huaco e Mama Ocllo, vindo a ter com esta última Sinchi Roca, seu sucessor e segundo líder da etnia já em Cusco.

A cidade de Cusco, nesta época, não tinha mais de quatro bairros (Quinticancha, Chumbicancha, Sairecancha e Yarambuycancha), os quais se dividiam nas sayas (parcialidades) Anancusco e Urincusco, de acordo com os velhos costumes; contudo, Manco Cápac continuou a deter todo o poder e, provavelmente para manter a tradição de Taipicala, se autodenominou cápac ("rei", em quechua, a despeito de Garcilaso de la Vega21 registrar para esta palavra os significados compostos de 'rico em valores morais' ou 'poderoso em armas').

Escolheu e nomeou seu sucessor Sinchi Roca e, ao morrer, foi mumificado e guardado no inticancha: este costume era comum em toda a região e em torno da múmia (mallqui) se organizava uma panaca (linhagem) responsável por seu sustento até o fim dos dias, como veremos mais adiante. A múmia de Mama Occlo, por sua vez, igualmente preservada, foi conduzida dois séculos mais tarde para a ilha sagrada de Coati, no lago Puquinacocha (ou Titicaca).


Ilustração 13
Ruínas Inca no lago Titicaca



Manco Cápac e Mama Ocllo são os personagens, e a lenda lhes atribui a fundação do
Tahuantinsuyo; na realidade, presume-se terem vivido entre a segunda metade do século XII e os primeiros anos do Século XIII, quando o futuro Estado Imperial Inca sequer se vislumbrava e o maior desafio era garantir a sobrevivência da etnia em uma região ainda mal conquistada e, por isto mesmo, hostil (ver Quadro XI).


Ilustração 14
Ruínas Inca no lago Titicaca



O segundo Inca - Sinchi Roca parece ter nascido em Tampuquiro, quando seus pais vagueavam a caminho de Cusco em busca de um local seguro; com a finalidade de ganhar simpatizantes, numa prática de estabelecimento de alianças políticas que se daria durante toda a existência da etnia Inca, Manco Cápac o casou com Mama Coca, filha do
curaca (chefe do clã) do ayllu de Sano, hoje San Sebastián, nos arrabaldes ao Sudeste de Cusco.

Dada a continuada guerra com as etnias que circundavam Cusco, Sinchi Roca também mal conseguiu alargar seus domínios, a despeito de aliado dos Sano, etnia de sua mulher, expandindo os Inca só até o cerro de Singa (hoje Tambomachay, local onde a futura elite Inca realizaria banhos rituais, a oito quilômetros de Cusco).

Ao morrer, Sinchi Roca deveria ter sido sucedido por seu filho Manco Sácap, mas por motivos ignorados terminou sendo sucedido por Lloque Yupanqui.



Quadro XI
O entorno da cidade de Cusco
(Séc. XVI)

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O terceiro Inca - Lloque Yupanqui, assim como seu pai, não expandiu o território Inca, dada a continuada ameaçada Ayarmaca. Sua habilidade política, porém, de acordo com as crônicas, parece ter sido decisiva para o pouco obtido: a simpatia do
curaca de Huaro (35 quilômetros do sul de Cusco), do curaca Pachachulla Huiracocha e até mesmo de alguns ayllus Ayarmaca.

Mas nada conseguiu junto a Tocay Cápac, o poderoso Ayarmaca que algumas vezes quase conseguiu expulsar os Inca de Cusco.

Visando mais aliados, tomou por esposa Mama Cágua, filha do curaca do ayllu de Oma, a onze quilômetros de Cusco, mas mesmo assim manteve-se até a morte como um simples chefe ameaçado de perto por outros mais poderosos.

Foi sucedido por Maita Cápac, seu quarto filho com Mama Cágua.



O quarto Inca - Maita Cápac era muito jovem ao assumir a mascaypacha(ou mascapaycha, em muitas crônicas) - faixa de lã vermelha para a testa, com borlas franjadas e tramadas com fio de ouro -, o maior símbolo de poder entre os Inca; assim, nomeou-se um irmão de seu pai para regente.

Nesta época, os Alcahuisa se sublevaram para escapar ao poder Inca e só se submeteram novamente quando da morte de seu líder Ayar Ucho, em batalha. A vitória reforçou a presença da etnia Inca em Cusco e permitiu-lhes pensar em invadir as terras Cunti, a Noroeste da cidade.

Política e militarmente os Inca iam se fortalecendo, inquietando os ayllus vizinhos e os Ayarmaca em especial, já que os descendentes de Taipicala pouco a pouco ocupavam pastos, águas, terras férteis e outros meios de produção.

Ao morrer, Maita Cápac deixou como sucessor seu filho Tarco Huamán, o qual foi reconhecido e governou por breve tempo; alguns anos depois, porém, foi deposto num golpe palaciano por seu primo Cápac Yupanqui e nomeado servidor do novo Inca.



O quinto Inca - Sucessor (por força) do quarto Inca, Cápac Yupanqui implementou de imediato uma administração draconiana; não poderia ter sido diferente, dadas as condições pelas quais obtivera a mascaypacha, e como primeira medida condenou à morte nove irmãos de Tarco Huamán, garantia de não ver seu poder contestado. A uns membros da etnia obrigou juramento de lealdade; a outros, expulsou de Cusco.

Filho de Curu Yaya, irmã de Maita Cápac, Cápac Yupanqui era sobrinho deste Inca e primo de Tarco Huamán.

Realizou duas expedições contra os Cunti, venceu-os e ocupou o seu território; logo após, tendo recebido pedido de ajuda da etnia Quechua de Amancay (hoje Abancay) contra os Chanca de Andahuayllas, tornou a vencer e ampliou sua força e prestígio na região: com os Chanca, ao Norte, e a vitória sobre os Colla, ao Sul, ampliou significativamente a área de domínio de sua etnia, pois os Colla já constituíam um estado poderoso e tinham muito a oferecer em uma guerra de conquista.

Mais adiante conquistou as etnias Cuyo e Anca, a 22 quilômetros de Cusco, e por fim conseguiu se aliar aos poderosos Ayarmaca: estes, ameaçados pelo crescente poderio Inca, ofereceram a Cápac Yupanqui Curi Hillpay, filha do líder Ayarmaca; Cápac Yupanqui tomou-a por esposa mas, dado os ciúmes de Cusi Chimbo, outra de suas mulheres, foi por esta envenenado.

Por trás do envenenamento estava a mão de Inca Roca, membro da parcialidade Anancusco; assim, mesmo tendo sucedido a Cápac Yupanqui seu filho Quispe Yupanqui, este foi morto nas lutas sucessórias e com Cápac Yupanqui acabou o predomínio da saya Urincusco, que mantinha concentrados em sua mãos todos os poderes, inclusive o religioso, desde a fuga de Taipicala.



Com o sexto Inca, a restauração da diarquia - Após a morte de Cápac Yupanqui os Anancusco invadiram o inticancha e proclamaram líder um dos membros de sua parcialidade: Inca Roca. Uma das primeiras medidas que o novo Inca tomou foi se casar com Cusi Chimbo, fazendo-a morrer a seguir também por envenenamento.

Inca Roca restaurou a diarquia, recuperando o antigo sistema de poder de Taipicala mas enfeixando nas mãos de sua parcialidade a maior parte dos poderes: dividiu-os de tal modo, que o líder da saya Urin ficou somente com o Sumo Sacerdócio do Deus-Sol, enquanto a saya Anan se incumbia das atividades civis, políticas, judiciais, econômicas e militares.

Por tal razão, Roca foi o primeiro líder de sua etnia a ostentar oficialmente o apelativo Inca: com ele, voltava a existir dois líderes na etnia, mas mantendo em suas mãos infinitamente mais poder efetivo do que o outro, Urin. Abandonou o inticancha, residência oficial do Sumo Sacerdote do Deus-Sol, dedicou-se a construir outra residência e, graças à restauração da diarquia, criou condições excelentes para iniciar a expansão de sua etnia contra os poderosos Estados vizinhos.


Ilustração 15
Lateral do palácio de Inca Roca, em Cusco



Conquistou os Masca (Paruro), derrotou definitivamente os Pinagua (em Muyna), invadiu Quiquijana e tomou Caitomarca (a 30 quilômetros de Cusco), região que perdeu pelo erro estratégico de ali não deixar guarnições. Conteve os Chanca às margens do Apurímac, graças ao uso de mercenários das etnias independentes Cana e
Cachi, foi para leste, rumo às montanhas, e chegou até Paucartambo, bem além de Pocoy Pacha (hoje Pisa'q, a 18 quilômetros de Cusco).

A etnia Inca continuava a ser pequena, pelo fato de até então as guerras de conquista serem empreendidas com o único objetivo de saquear, não anexando definitivamente os territórios ocupados através de instalação de guarnições de posse, inspeção e vigilância; basta ver que Tito Cusi Huallpa, filho de Inca Roca e nomeado seu sucessor, foi mantido refém por um ano inteiro em mãos Ayarmaca, que se insurgiram contra os Inca e os Huallacán, os quais haviam dado a Inca Roca como esposa Mama Micay, filha de um líder Huallacán mas anteriormente já prometida ao cápac Ayarmaca.

Após a fuga de Tito Cusi Huallpa do cativeiro Ayarmaca, o rapaz foi nomeado co-reinante da etnia Inca, numa prática daí por diante levada a efeito com vistas a investir desde cedo o futuro sucessor e evitar lutas pela sucessão da mascaypacha.

Anos depois, antes da morte de Inca Roca, foi celebrada a paz entre as etnias: Tito Cusi Huallpa tomou como esposa Mama Chiquio, filha do líder Ayarmaca Tocay Cápac, enquanto este tomava como esposa Curi Ocllo, filha de Inca Roca.



O sétimo Inca - Tito Cusi Huallpa, que após tomar posse da mascaypacha denominou-se Yáhuar Huácac, foi o primeiro Inca a se preocupar com a necessidade de estabelecer guarnições de controle nas terras conquistadas, visando anexá-las em definitivo.

Parece não ter tido muitos problemas com os Ayarmaca, provavelmente pela aliança matrimonial estabelecida por ele e seu pai, e dos filhos com Mama Chiquio escolheu Paguac Huallpa como sucessor; este filho, todavia, não foi aceito pelos Huallacán, os quais preferiam Marcayuto, filho de Yáhuar Huácac com uma mulher de sua etnia. Os Huallacán então mataram Paguac Huallpa numa emboscada e Yáhuar Huácac decidiu eliminar a sede da etnia em represália, morrendo antes disto, porém, graças a uma sublevação dos Cunti, ocorrida na época.

Os Cunti, que haviam sido submetidos por Cápac Yupanqui, invadiram Cusco por se opor aos pesados turnos de trabalho que eram obrigados a cumprir para sustentar a nobreza cusquenha; durante a invasão mataram Yáhuar Huácac e inúmeros outros filhos seus na porta mesma do inticancha, o Templo do Sol.



O oitavo Inca - Morto Yáhuar Huácac e quase todos os seus descendentes, decidiu-se por entregar a mascaypacha a Jatún Túpac, também membro de saya Anan; para os registros oficiais, entretanto, ele foi por muito tempo registrado como filho de Yáhuar Huácac, de modo a apagar da História as marcas da sublevação Cunti e da morte do Inca nas mãos de uma etnia subjugada.

Como se percebe pelas crônicas coligidas, Cusco continuava sendo um pequeno reino rodeado de outros, hostis, muito mais extensos, poderosos e expansionistas: Lupaca, Colla, Chanca, Chincha, Collique, Chimor, Ayarmaca etc.

Jatún Túpac nomeou-se Huiracocha, patronímico tomado de empréstimo ao deus Ticsi Huiracocha Pachachayachic, o maior deus da cosmogonia andina, pelo qual se dizia protegido.

Tomou como mulher principal Mama Runto, filha do curaca de Anto, com a qual teve vários filhos e entre eles Cusi Yupanqui, que em futuro breve viria a ser o Inca Pachacútec, artífice do Tahuantinsuyo.

Outra mulher de Huiracocha, a sahuasera Curi Chulpi, viria a ter papel preponderante no momento da sucessão, como veremos mais à frente, pois era mãe do herdeiro nomeado Urco.

Huiracocha ampliou as conquistas Inca e anexou Yucay e Calca (onde fez construir um palácio), controlou com mão férrea motins em Pisa'q e Muyna, além de levantes dos Ayarmaca e da etnia Guayparmaca; ao mesmo tempo, para garantir a lealdade da saya Urin, determinou ser daí por diante prerrogativa do Inca (Anancusco) a nomeação do Sumo Sacerdote do Sol, embora quase sempre o extraindo do ayllu Urin Tarpuntae, de comprovada lealdade.

Edificou novas construções, aumentou terras de cultivo para maior colheita de cereias, ampliou a manufatura de têxteis (produtos de que necessitava para compensar os serviços de guerreiros e aliados políticos) e determinou a utilização de tocapus nos trajes da nobreza incaica.

(Os tocapus são ornamentos geométricos tidos como traços decorativos de natureza meramente simbólica; estudos mais recentes, porém, aventam a hipótese de os tocapus terem composto uma linguagem iconográfica silábica, não fonêmica, ainda não compreendida.) Conquistou os Canchis e estabeleceu relações de paz com os reinos Colla e Lupaca; após esta pacificação decidiu retirar-se para Calca, para ali viver o fim de seus dias, e nomeou Urco como seu sucessor e herdeiro.



O nono Inca - O caráter deste novo Inca desagradou sobremaneira à nobreza Inca, dado ele ser mais entregue a lazeres e prazeres do que a atividades de mando e poder.

Apo Mayta, um neto de Cápac Yupanqui, chegou até mesmo a tramar um golpe palaciano para depor Inca Urco, só não o desfechando por temer represálias de Huiracocha.

A crise se avolumou quando os Chanca, aproveitando conjuntura tão propícia, investiram para conquistar Cusco. Esta etnia, a esta altura um Estado já, era senhora de todos os reinos na região que hoje compõe os departamentos de Ayacucho e Apurímac, a Noroeste de Cusco.

Ferozes e combativos, de acordo com as crônicas, os Chanca seguiam dois líderes de nome dinástico (Uscolvilca, da saya Ananchanca, e Ancovilca, da saya Urinchanca), levavam nas batalhas a múmia do primeiro Uscolvica, fundador da etnia, e tinham sua sede em Andahuayllas, onde racionalizaram admiravelmente bem a utilização de diferentes pisos ecológicos, desde os baixos e cálidos vales andinos até as frias punas das alturas.

A ameaça de invasão foi suficiente para que Huiracocha e Urco fugissem para Chita, levando suas mulheres e pertences, de lá rumando para Calca e deixando sua etnia entregue à própria sorte; pouco depois Huiracocha recebeu um embaixador Chanca, aceitando a rendição de Cusco e sua entrega incondicional. Na cidade de Cusco, porém, a resistência foi montada por Tito Cusi Yupanqui, outro filho de Huiracocha, o qual venceu a primeira batalha; as etnias circunvizinhas se aliaram à Inca em seguida e, desta forma, os Ayarmaca pela primeira vez lutaram ao lado dos cusquenhos e não contra as tropas da cidade.

Pouco depois a múmia de Uscovilca foi capturada em batalha e isto determinou, como era costume na região, a vitória da etnia Inca; por fim, outros senhorios e reinos até então indecisos se somaram a Cusco e os Chanca foram perseguidos até a margem direita do Apurímac, a 12 quilômetros de Cusco.

O triunfo Inca estava consumado e, com ele, acabava o período de sobrevivência do diminuto senhorio Inca em Cusco.

Dava-se início ao Tahuantinsuyo, com a rudeza que caracterizava aqueles tempos e seus costumes: os inimigos foram enchidos de palha e cinza, transformando-se em tambores que rufavam vitória, centenas de prisioneiros serviam de tapete para volta triunfal dos cusquenhos à cidade, Urco (que temia o poder conquistado por Tito Cusi Yupanqui e ardia em trama contra ele) foi esquartejado e cabeças inimigas passaram a ornamentar a cintura dos vitoriosos.


Ilustração 16
Cabeça-troféu mumificada
(Cultura Nasca)




ETAPA II
(?1438/1527)

O Tahuantinsuyo, de Pachacútec a Atahuallpa


O décimo Inca - Pachacútec, nome patronímico de Tito Cusi Yupanqui, foi o real artífice do
Tahuantinsuyo e todas as crônicas concordam com o fato dele ter sido o verdadeiro divisor de águas na história do estabelecimento da etnia Inca na região andina.

Waldemar Espinoza Soriano22 enfatiza muito propriamente, a respeito deste momento da história Inca, que se "tivessem os Chanca conquistado os louros, a etnia Inca teria passado ao anonimato e agora todos falaríamos somente da história do império e da cultura Chanca e de suas formidáveis conquistas baseadas na reciprocidade e redistribuição. Mas como os Chanca foram os derrotados, foram esquecidos e deixados apenas como figurantes na episódica etapa de seu enfrentamento com os Incas de Cusco. Foram jogados no limbo com tudo o que foram e representaram antes deste acontecimento. Dos Chanca não se conhece nenhuma relação de seus reis ou Cápacs, enquanto sobre a etnia Inca as referências são muito abundantes; contudo, Chanca e Inca foram partícipes de uma mesma cultura e uma mesma civilização: a andina" (grifos do autor).

Foram estas cultura e civilização que o Inca Pachacútec soube habilmente organizar, em favor de um Estado produtivo e expansionista como nenhum houvera até então na América do Sul, como seu próprio nome em quechua o indica: "pessoa com quem começa uma nova era".

Sua primeira medida foi tentar apagar da história o nome de Urco, seu antecessor, passando a ser (para a história oficial) o nono Inca e iniciando logo após uma política de invasão e ocupação de territórios muito mais amplos do que seus antecessores haviam podido algum dia imaginar.

Submeteu os reinos Chanca e Ayarmaca, ocupou a região dos Tambos (hoje Ollantaytambo), outrora fundada por um dos dois grupos emigrantes de Taipicala, anexou as etnias Cuyo, Cugma e Huata e fez incorporar os senhorios de Vilcabamba, Vitcus, Amaybamba, Pampa, Cotapampa, Cotanera, Omasayo e Aymarae.


Ilustração 17
A fortaleza de Ollantaytambo



Ilustração 18
Detalhes de Ollantaytambo



Ilustração 19
Detalhes de Ollantaytambo



Ao Norte de Cusco, tomou posse de Andahuayllas, sede dos Chanca, de inúmeras regiões e etnias da costa, como as de Nasca e Ishmay (hoje
Pachacámac-Rimac), além de Pultamarca (hoje Cajamarca), na serra setentrional, e das férteis terras das margens do rio Pampa. Ao Sul, incursionou sobre os Colla e os Lupaca, vencendo-os de uma vez por todas e chegando até Tiahuanaco. A Oeste foi até Camana e a costa central peruana, e a Leste chegou a Marcapata (Carabaya).

Em 1468, de acordo com todas as fontes, Pachacútec nomeou seu filho Amarú Yupanqui seu sucessor e co-reinante; todavia, o então futuro Inca parece ter se mostrado desde o início despido do espírito conquistador e guerreiro que o início do Tahuantinsuyo necessitava e, por tal razão, outro filho de Pachacútec foi escolhido e nomeado co-reinante: Túpac Yupanqui.

Como co-regente, Túpac Yupanqui continuou a obra de seu pai, expandindo as fronteiras do Tahuantinsuyo ao Norte até perto de Quito (no hoje Equador); ao mesmo tempo, parece ter tido presença ativa em inúmeras medidas tomadas por Pachacútec no sentido de organizar a administração do Estado Imperial Inca e de ampliar e melhorar a cidade de Cusco, sede central do Tahuantinsuyo.

Pachacútec não foi somente o iniciador da expansão imperial dos Inca; foi, de acordo com todos os registros, o organizador do Tahuantinsuyo em seus mínimos detalhes, aproveitando o conjunto de conquistas culturais que etnias sem conta haviam desenvolvido no correr da história e as dispondo de forma a permitir a gradativa hegemonia Inca.

Num trabalho que envolveu, principalmente, a crescente organização centralizada de todas as formas de pensar, sentir, agir e fazer das incontáveis etnias que se espalhavam pelas regiões da América Andina.

Lembra o antropólogo brasileiro Roberto da Matta23 que "tudo o que é humano é do homem e o homem está realizado (ou se realizando sempre a cada vez) em todas as manifestações sociais encontradas em todas as sociedades de todos os tempos e de todos os lugares. Do mesmo modo que não existem formas sociais perfeitas (ou mesmo mais perfeitas), pois cada uma delas está relacionada a outras formas, compondo configurações específicas, também não existe uma sociedade (ou cultura) mais acabada que outras" (parênteses do autor).

Todavia, para a consolidação e expansão do Tahuantinsuyo foi necessário forjar uma série de lendas sobre as origens da etnia Inca, valorizando-a como a forma mais bem acabada de civilização possível.

De acordo com elas, tudo teria tido começo no lago Puquinacocha, onde o casal primordial Manco Cápac e Mama Ocllo teriam sido concebidos pelo Deus-Sol e enviados a Cusco como forma de civilizar os habitantes daquelas regiões; para isto teriam surgido em Pacarictampu através das grutas de Tambotoco (ou Sutijtoco) e Cápactoco, "A Janela dos Tambos" e "A Janela dos Poderosos" - em outras palavras, a própria gente de Manco Cápac.

Desta forma, a andança dos emigrantes de Taipicala desapareceu das versões oficiais e só foi dado destaque ao período Pacarictampu-Cusco, na passagem do Século XII ao XIII. Com isto, a desfiguração histórica foi tão intensa que as primeiras emigrações de Taipicala passaram a coincidir com o início do ordenamento do universo e dos homens pelo deus Ticsi Huiracocha Pachachayachic - o maior da hierarquia teológica e cosmogônica de toda a região andina -, mesclando-as com a peregrinação deste deus ao Norte da região; então, Manco Cápac aparece como filho de um deus e nomeado por este como regente da humanidade, sempre à frente da etnia Inca.

Mas foi necessário muito mais que apenas uma coleção de lendas para criar, organizar e estabelecer um Estado Imperial e a etnia Inca teve de intervir em todos os aspectos da vida andina da época, codificando-os e os dispondo de forma a regulamentá-la em detalhes.

Para isto, Pachacútec organizou a base das atividades do Tahuantinsuyo :
regulamentou o sistema de mitmas ("traslado de povoações", dirigido pelo Estado com várias finalidades, como veremos mais adiante);
delimitou as terras, os mananciais e os pastos para racionalizar a produção;
ampliou o uso de estatística no controle da população e da produção têxtil, agrícola e pecuária;
iniciou o sistema de expansão e controle de etnias pela redistribuição organizada de produtos agropecuários;
intensificou a construção de patapatas (ou andenes, como os espanhóis os chamaram) e huarohuaros (ou "camellones") nas serranias, visando ampliar as terras agricultáveis em todas as regiões conquistadas;
realizou a demarcação política dos reinos e senhorios, mantendo as características locais de cultura e poder;
incrementou a construção de caminhos, pontes e llactas ("cidades planejadas"), com a infraestrutura política, civil, militar e judicial necessária para uma boa administração;
dividiu o Estado em suyos ("regiões") e huamanis ("províncias");
implantou o serviço de tucricuts ("governadores") e de tucuirucuts ("espiões do Estado");
iniciou a utilização do sistema decimal para controle da população através de pachacas (unidades administrativas de 100 famílias), guarangas (unidades administrativas de 1.000 famílias) e unus (unidades administrativas de 10.000 famílias), sistema este que já havido sido adotado pelos Huari, quando de seu ponto máximo de desenvolvimento;
procedeu à replanificação e reedificação total da cidade de Cusco, sempre utilizando maquetes;
concebeu e construiu um novo templo sacerdotal, o Q'oricancha, construindo-o de pedra e adobe e fazendo-o revestir de placas de ouro, utilizando blocos rochosos vindos da região dos Sano (nos arrabaldes de Cusco) e empregando um verdadeiro exército de mitayos ("trabalhadores por turno"), aos quais pagava com roupas, coca, alimentos e bebidas;
conformou definitivamente o sistema de parcialidades de Cusco, demarcando com precisão as terras das sayas Anan e Urin, entregues aos principais ayllus de cada parcialidade;
estabeleceu benefícios especiais para as etnias Sahuasera, Antasayac e Alcahuisa, dando-lhes o título de Incas de Privilégio (costume ampliado mais tarde para premiar aliados políticos e líderes militares ou especialistas técnicos);
iniciou a construção da fortaleza-templo de Sacsayhuamán nos cerros ao Norte de Cusco, inspirando-se nas velhas construções de Taipicala e enviando especialistas até aquela longínqüa região;


Ilustração 20
Ruínas de Sacsayhuamán



Ilustração 21
Ruínas de Sacsayhuamán



Ilustração 22
Ruínas de Sacsayhuamán



preencheu a praça principal da cidade (
Aucaypata, a futura Plaza de Armas) com areia vinda de Chincha, secando o banhado ali existente e elevando seu nível;
ampliou a acllahuasi da cidade ("Casa das escolhidas", mulheres que ali se dedicavam à produção das bebidas e artefatos têxteis necessários à nobreza Inca e suas práticas de retribuições, como veremos mais adiante);
instalou em Sano cárceres para delinqüentes;
erigiu pousadas e depósitos estatais de gêneros alimentícios (tambos e collcas) no vale do rio Vilcamayo;
definiu o papel dos curacas, do exército, dos funcionários e dos administradores estatais, montando uma infraestrutura administrativa burocraticamente organizada;
definiu as faixas etárias dentro das quais os cidadãos eram considerados responsáveis por determinados papéis sociais;
acatou as regras sucessórias dos curacazgos regionais, com o objetivo de evitar tumultos ou guerras civis depois da morte de cada curaca;
estabeleceu a guarda pessoal do Sapainca (de sápac inca, "O Único Inca"), sempre da saya Anancusco;
criou escolas para a educação e a formação histórica e/ou administrativa da elite Inca, ampliando o uso de quippus ("cordões com nós", com os quais se registrava quantidades e qualidades estatísticas);
reorganizou e instituiu festas religiosas;
e, como já vimos, fez propagar amplamente uma série de versões mitificadas sobre seus antecessores, estabelecendo-os como paradigmas de toda a vida organizada e civilizada da humanidade andina.

Nesta versão ideologizada, Manco Cápac foi transfigurado como o Organizador Inicial do Tahuantinsuyo e Pachacútec como seu Organizador Definitivo, sempre tendo por objetivo justificar a dominação das etnias subjugadas e conseguir mais facilmente sua submissão.


Ilustração 23
Ruínas de Sacsayhuamán



Ilustração 24
Ruínas de Sacsayhuamán



Por tudo isso Waldemar Espinoza Soriano resume assim o papel deste Inca no processo de implantação do
Tahuantinsuyo24: "Pachacútec e seu co-regente (Túpac Yupanqui) levaram a cabo o que se pode chamar de um 'casamento de conveniência' entre a velha civilização andina, sobretudo a da serra, incapaz de renovar a si mesma, e a etnia Inca, que não destruía o conquistado mas dele se apropriava, o assimilava e se acreditava legítima sucessora dos deuses estelares. O surgimento do Estado Imperial Inca, conseqüentemente, não implicou o desaparecimento das culturas precedentes e das demais etnias andinas (o que foi possível) porque quase todas, praticamente, participavam dos mesmos elementos culturais. A formação do Império foi rápida e fácil porque entre Cusco e muitas etnias regionais haviam inúmeros traços de semelhança, coincidência em crenças e concepções políticas ou morais, fenômeno que vinha sendo gestado deste os vetustos tempos de Chavín, de tal forma que a expansão Inca veio a ser a vitória do sincretismo" (grifos e parênteses meus).

Pachacútec morreu, ao que relatam os cronistas, em 1471, e teve sua múmia colocada no Templo do Trono que fizera construir em T'oqoq'achi (hoje San Blás, em Cusco), de acordo com Victor Angles Vargas25; ao seu lado estava o principal ídolo dos Chanca, de acordo com o costume de conservar o ídolo dos povos conquistados como troféus do Inca que os submetera.



O décimo-primeiro Inca - Túpac Yupanqui mostrou-se digno sucessor de Pachacútec, ao menos no que diz respeito à sua capacidade organizativa e administrativa e ao processo de expansão e consolidação da etnia Inca .

Ampliou enormemente as fronteiras do Estado, principalmente com amplas conquistas ao Sul e Sudeste (hoje Argentina e Chile). Dividiu o Estado Imperial em quatro (tahua) regiões (suyos), de acordo com o clima predominante em cada uma, englobando as províncias e sempre tomando Cusco como centro: Antisuyo, ao Norte e Nordeste; Cuntisuyo, ao Sul e Sudeste; Collasuyo, a Sudeste; e Chinchaysuyo, a Oeste e Noroeste.

Reunindo-as, todas, num só nome e Estado Imperial - Tahuantinsuyo, "As Quatro Regiões" (de tahua, "quatro", ntin, sufixo plural que dá a idéia de "união entre si", e suyo, "região") (ver Quadro XII).

Agora, sim, Cusco era a jatún túpac llacta ("magnífica e gloriosa cidade") e o "umbigo do mundo" de então, a capital política, militar, religiosa, administrativa e cultural do Estado, num inaudito centralismo.

Casou-se, entre outras mulheres, com Mama Ocllo, com a qual teve seu filho e co-regente Huayna Cápac (nascido em Tumebamba com o nome de Tito Cusi Huallpa).



Quadro XII
Os quatro suyos



O décimo-segundo Inca - Outra mulher do
Sapainca, todavia, Chuqui Ocllo, despeitada por seu filho Capac Huari não ter sido nomeado herdeiro da mascaypacha, envenenou Túpac Yapanqui em Chinchero e tramou um golpe contra Huayna Cápac, visando sua destituição; o golpe só foi evitado graças à pronta ação de Huamán Acachi, militar de grande prestígio e experiência e companheiro de Túpac Yapanqui em muitas conquistas. Acachi "deteve" o ainda jovem Titu Cusi Huallpa na fortaleza de Quispicanchis, para não correr riscos, e fez prender e matar os sediciosos.

Foi então nomeado um tio de Tito Cusi Huallpa como regente, dada a sua ainda pouca idade; todavia, este tio (Apo Huallpaya) tramou um golpe para favorecer um filho e entronizá-lo; uma vez mais Huamán Acachi deslindou a conspiração e defendeu o sucessor nomeado de Túpac Yupanqui, até o reconhecimento definitivo do novo Sapainca, que tomou o nome de Huayna Cápac.

Pouco mais havia por conquistar e, assim, além de anexar regiões no extremo norte (hoje Equador e Sudeste da Colômbia), Huayna Cápac se ocupou principalmente com manter a paz em todo o Tahuantinsuyo; para isto, percorreu inúmeras vezes todo o território, nomeando visitadores gerais e funcionários administrativos em todos os tipos de atividades. Sufocou rebeliões étnicas e consolidou a presença Inca tanto ao Sul (combatendo guaranis ao Norte da Argentina e Oeste do Paraguai) quanto em seu extremo setentrional (perto do rio Antascamayo, hoje Carchi, na atual fronteira entre Equador e Colômbia).

Pela consolidação do Estado ao Norte, a llacta de Quito ganhou grande importância, passando a receber sucessivas mitmas cusquenhas, encarregadas de controlar as etnias Carangue, Cayambe e Pasto; alguns cronistas até mesmo sugerem que tal fato levou Huayna Cápac a cogitar a divisão do Tahuantinsuyo entre seus dois filhos, o que não chegou a se dar por pressão da elite Inca de Cusco.

Huayna Cápac nomeara seu sucessor Topa Cusi Huallpa, mas pouco antes de morrer parece ter escolhido outro filho, Ninancuyuchi; por volta de 1526 ou 1527, porém, Huayna Cápac e Ninancuyuchi foram envenenados pelos curacas de Chachapoya, etnia que ainda se rebelava contra os Incas.

Assustados pelo acontecido e ameaçados pela primeira epidemia de varíola que chegava às terras andinas (trazidas pelos espanhóis a Tumbes e Parinas na segunda viagem de Francisco Pizarro), os membros da elite de Cusco nomearam Topa Cusi Huallpa sucessor da mascaypacha.

O Tahuantinsuyo tinha chegado a seu ponto máximo de expansão, como se vê no Quadro XIII, para menos de uma década depois se decompor inexoravelmente em mãos espanholas e devido a lutas intestinas.



Quadro XIII
O Tahuantinsuyo, em seu apogeu






ETAPA III
(1527/1533)

A rápida e total desagregação do Tahuantinsuyo

O décimo-terceiro Inca - Topa Cusi Huallpa era o segundo filho de Huayna Cápac e uma de suas mulheres, Mama Ragua, também irmã do Sapainca.

Quanto ao fato da mãe do sucessor ser irmã carnal do Sapainca, cabe um esclarecimento. Como ensina Maria Rostworowsky de Diez Canseco26, "entre os Inca o direito ao governo se apoiava na exogamia matrilinear das panacas, que dava preferência ao filho da irmã (de pana, em quechua a "irmã do homem"). Para que a herança pudesse passar de pais para filhos, primeiro lançaram mão da co-regência, isto é, da associação do pai, ainda em vida, com o filho escolhido para sucedê-lo. Em segundo lugar, optaram pelo matrimônio do herdeiro com sua irmã para justificar o desejo do Inca de deixar o poder a seu filho", e não necessariamente o primogênito (grifo e parênteses meus).

Apenas por este ponto de vista andino, nitidamente distinto do europeu, é que se pode entender porque Atahuallpa, após vencer Huáscar na batalha pela mascaypacha (como veremos em breve), fez queimar a múmia de seu próprio avô paterno - supremo desagravo no Tahuantinsuyo: é que a transmissão de poder entre os Incas se contava pelos ascendentes do ayllu materno, desde que irmã do marido, e não pelos ascendentes de ayllu paterno.

(Isto não quer dizer que imperava apenas a filiação matrilinear na etnia Inca; como veremos mais tarde, em todo o mundo andino vigorava a descendência paralela.)

Topa Cusi Huallpa adotou o nome de Huáscar e assumiu o poder governando todo o Tahuantinsuyo - e não apenas metade, como se crê mais comumente; entre 1527 e 1528 seu irmão Atahuallpa, que já o havia reconhecido como Sapainca, pediu a nomeação de Incap Rantin ("procurador do Inca") em Quito e em toda a sua área de influência, passando a residir lá.

Huáscar teve poucas preocupações quanto à conquista e manutenção de territórios, exceto no que diz respeito a algumas etnias que se negavam a pagar parias (sal e caracóis marinhos, de alto valor litúrgico estes últimos), mas desde o início de seu governo as teve em demasia no tocante a lutas internas de poder na elite cusquenha.

Segundo os registros, até seus próprios irmãos Chuquisguamán e Conono conspiraram para entronizar outro irmão, Cusi Atauchi.

Mas a principal sublevação de Huáscar enfrentou foi a de Atahuallpa, Incap Rantin em Quito e nas terras do extremo norte do Tahuantinsuyo, seu irmão por parte de pai mas não de mãe. Atahuallpa, apoiado pelas etnias locais Cayambe, Carangue e Pasto, que devotavam oposição ferrenha ao controle de Cusco, e liderando as mitmas cusquenhas instaladas na região, na ocasião revoltadas contra atos arbitrários do Sapainca, negou-se a obedecer a uma ordem deste, que o chamava de volta a Cusco para condená-lo à morte.

Estalada a revolta e a disputa entre os dois irmãos, Atahuallpa perdeu a primeira batalha; mas a partir daí, e ao lado das etnias Cayambe, Carangue e Pasto, bem como das mitmas cusquenhas, foi sempre o vencedor.

Ao mesmo tempo os espanhóis chegavam às cercanias de Cusco.

Assim, em 1532, quando Atahuallpa descansava nos banhos termais de Pultamarca (hoje Cajamarca) e assistia ao longe suas tropas invictas invadirem e conquistarem Cusco, o espanhol Francisco Pizarro o fez prisioneiro. As mitmas de Cusco, com as etnias nortenhas a seu lado, dizimaram as famílias de Huáscar e Túpac Yupanqui, destruindo grande parte da cidade (exceto o Q'oricancha e a acclahuasi) e desestruturando de uma vez a elite dirigente do Tahuantinsuyo.

Huáscar foi morto por ordem direta de Atahuallpa, o qual, por sua vez, foi executado com garrote vil em junho ou julho de 1533 na praça principal de Cusco, a futura Plaza de Armas sob mãos espanholas. Se queimado, posto que "pagão", não poderia ter seu corpo mumificado e não se perenizaria, de acordo com as crenças andinas; desta forma, Atahuallpa "preferiu converter-se" ao cristianismo, adotar o nome de seu "padrinho" (Francisco, de Pizarro) e ser então executado.

Dias depois de sua morte seu corpo desapareceu, supõe-se que levado para serras próximas.

Para as etnias Cayambe, Carangue e Pasto, era a vingança contra as grandes derrotas sofridas no passado frente às hostes incaicas; para as mitmas de Cusco, entretanto, parecia ser a oportunidade de capturar o poder e o governo do Tahuantinsuyo.

Mas com a morte de Huáscar e Atahuallpa, além da chacina de toda a elite dominante, o Tahuantinsuyo desmoronou como um castelo de cartas.

Desaparecendo o núcleo central do Estado, desaparecia com ele o sistema administrativo e o controle planejado das regiões subjugadas.

E com a deliberada colaboração de várias etnias, as quais ilusoriamente passaram a ver nos espanhóis preciosos aliados na conquista da mascaypacha, o outrora poderoso Tahuantinsuyo - embora frágil enquanto Estado, pois não tivera tempo de desenvolver uma identidade cultural homogênea -, desagregou-se inexoravelmente.

Como explica Maria Rostworowsky de Diez Canseco27: "a maior parte das macroetnias andinas, superado o primeiro momento de estupor depois dos acontecimentos de Cajamarca, apegaram-se aos espanhóis movidas pelo desejo de independência em relação à hegemonia de Cusco. Os curacas decididamente ajudaram os forasteiros, proporcionando-lhes víveres, carregadores e tropas de apoio, sem o que os espanhóis teriam fracassado em sua empresa. Pizarro, grande político e diplomata, soube aproveitar os sentimentos de independência que prevaleciam entre os senhores étnicos para conseguir sua colaboração.

Os espanhóis, longe de estar sozinhos em um país hostil, contaram desde o princípio com a ajuda dos indígenas, os quais ignoravam o estado de prostração no qual se veriam envolvidos mais adiante" (grifos meus).

Era o início da colonização européia, em nome do rei Carlos V de Espanha e pelas mãos de Francisco Pizarro, Diego Almagro e não mais de 180 homens.




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