Capítulo 2


As etnias que compuseram
o Estado Imperial Inca,
o Tahuantinsuyo





I

Praticamente todas as culturas e etnias existentes no altiplano andino - e até fora dele, espalhadas por todo o futuro território abrangido - foram gradativamente incorporadas ao Estado Imperial Inca, para que ao fim de um lento processo de três séculos o Tahuantinsuyo se estendesse do Equador à extremidade setentorial do Chile, tanto nos Andes quanto na costa pacífica da América do Sul.

Este processo, como já mencionei anteriormente, só se pôde recompor com base em testemunhos etnográficos encontrados na região (fragmentos cerâmicos e de tecido, peças de metalurgia de metais preciosos ou não, armas ou ferramentas de madeira e pedra, escombros de casas, fortalezas, antigos centros de culto ou administrativos etc.) ou em crônicas e relatos de épocas, notadamente os realizados nos Séculos XVI e XVII por espanhóis e mestiços europeizados.

É bastante farta a documentação de tais crônicas e relatos de conquista, conhecimento e exploração, contando-se entre as fontes mais acuradas os registros de Cristóbal de Barrientos (1540), Supno Collapina (1542), Cristóbal Ponce de León (1543), Gonzalo Fernandez de Oviedo (1548), Juan Diez de Betanzos (1551), Cristóbal de Molina, El Almagrista (1552?), Francisco Lopes de Gómara (1552), Pedro de Cieza de León (1553 e 1554), Pedro Sancho de La Hoz (1554), frei Cristóbal Castro e Ortega Morejón (1558), frei Bartolomé de las Casas (1559), Juan de San Pedro (1560), Francisco Cusichaca (1561), Diego de Castro (ou Titu Cusi Yupanqui) (1570), Juan Pólo de Ondegardo (1571), Pedro Pizarro (1571), Pedro Sarmiento de Gamboa (1572), Cristóbal de Molina, El Cusqueño (1575), Diego de Figueroa Caxamarca (1577), Pablo de Castro (1577?), Miguel Cabello Valboa (1586), frei Reginaldo de Lizárraga (1605), Diego Gonsalez Holguín (1608), Inca Garcilaso de la Vega (1609), Juan Santacruz Pachacuti Yamqui Salcamayhua (1613), Felipe Guamán Poma de Ayala (1615), frei Martín de Murúa (1616), Alonso Ramos Gavillán (1620), frei Pablo José de Arriaga (1621), Fernando de Montesinos (1629) e frei Barnabé Cobo (1636).

Tais registros permitem reconstruir bastante de perto o processo de estabelecimento, consolidação e expansão do Tahuantinsuyo, bem como sua rápida decomposição sob as mãos espanholas, notadamente quando sobrepostos e confrontados entre si, em que pesem as eventuais distorções romantizadas dos relatos da época e a visão européia aplicada ao entendimento e registro de uma realidade cultural em muito diferente das sociedades conhecidas pelos cronistas de então.

Por isso se encontram aqui e ali, em obras de estudiosos mais recentes, a recusa a classificar o Tahuantinsuyo como "Império Inca", já que o termo "Império" era tomado pelos cronistas europeus como próprio de uma estrutura de poder supostamente análoga à existente no mundo feudal de então.

Como veremos no correr deste ensaio, e principalmente em sua segunda parte, a estrutura econômica e o sistema político vigente no Tahuantinsuyo na verdade se aproximavam bastante dos de antigos reinados da Ásia, encontrando-se nele, por isto, muito mais um modo asiático de produção econômica - e sua conseqüente superestrutura política e ideológica - do que um Império, tal qual se o conhecia no mundo dos Séculos XVI e XVII.

Mas como começou o Tahuantinsuyo?



II

De acordo com Inca Garcilaso de la Vega12 (mestiço de uma nobre Inca e um capitão espanhol) e com as lendas Inca sobre a origem do Tahuantinsuyo, "as gentes daquele tempo viviam como feras e animais brutos, sem religião nem polícia, sem cidades nem casa, sem cultivar ou semear a terra, sem vestir ou cobrir suas carnes, porque não sabiam tecer algodão nem lã para fazer o que de vestir (...) Nosso pai, o Sol, vendo os homens tal como estavam (...) teve piedade e lástima e enviou do céu à terra um filho e uma filha para que doutrinassem as gentes no conhecimento de nosso pai, o Sol, para que o adorassem e o tivessem por Deus e para que lhes dessem preceitos e leis dentro das quais vivessem como homens em razão e urbanidade; para que habitassem em casas e povoados, soubessem lavrar as terras, cultivar as plantas e colheitas, criar o gado e aproveitar deles e dos frutos da terra como homens racionais e não como bestas (...) Nosso pai, o Sol, pôs estes dois filhos no lago Titicaca (...) e lhes mandou que fossem por onde quisessem e parassem para comer e dormir, tentando fincar no solo uma vara de ouro (...) que lhes deu como sinal de poder (...) Onde aquela vara de ouro se fincasse com um só golpe na terra, sumindo dentro dela, ali queria o Sol, nosso pai, que parassem e fizessem seu assento e sua corte" (grifos do autor e parênteses meus).

Assim teria tido início a aventura de Manco Cápac e Mama Ocllo, o casal Inca primordial, até que no vale de Cusco teriam conseguido enterrar a barra de ouro no solo de uma só vez, fazendo-a sumir na terra e assinalando ali o local desejado pelo Deus-Sol para o início do estabelecimento de seu Estado Imperial.

Porém, para Waldemar Espinoza Soriano, professor da Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, Peru, e membro do Institute of Andean Studies, de Berkeley, Califórnia13, "a leitura de documentos dos Séculos XVI e XVII, uns publicados e outros inéditos, deixa ver que a etnia Inca não era outra coisa senão uma caravana de imigrantes fugidos de Taipicala (agora Tiahuanaco), que por volta dos fins do Século XII de nossa Era conseguiram escapar de lá em busca de refúgio em terras localizadas ao norte de seu habitat original" (parênteses do autor).

Expliquemos melhor: a hoje região de Tiahuanaco, no Sudoeste da Bolívia, abrigou no correr dos primeiros séculos da Era Cristã os Puquina; esta etnia, organizadora do Estado Taipicala e dos centros administrativos e de culto de Tiahuanaco, parece ter sofrido nos fins do Século XII um violento ataque por parte de povos Aymara vindos das regiões de Tucumán e Coquimbo (hoje, Norte da Argentina).

Evidências arqueológicas encontradas no local por Francis de Castelnau em 1845 e, duas ou três décadas depois, pelo antropólogo alemão Max Ühle, dão conta de que Taipicala foi invadida e destruída quando ainda era habitada e estava em construção, como ferramentas e blocos de pedras prontos a justapor, encontrados aos pés de muradas, parecem atestar.

Ora, já nos ensinou o antropólogo belga Claude Lévi-Strauss14 que "recebe o nome de organização dualista um tipo de estrutura social freqüente na América, Ásia e Oceania, caracterizada pela divisão do grupo social - tribo, clã ou aldeia - em duas metades, cujos membros mantêm relações recíprocas que podem se estender desde a mais íntima colaboração até uma hostilidade latente e que, em geral, associam ambos estes tipos de comportamento"(grifo meu).

Como veremos, por toda história do Tahuantinsuyo este tipo de divisão se manifestará, como herança de Taipicala (ou até anterior), assistindo-se a esta relação dinâmica de oposição em alguns momentos e de colaboração em outros, o que implicava dividir o poder social em uma diarquia: em Taipicala o líder da parcialidade (ou saya) Anan detinha o poder político e militar, enquanto o líder da saya Urin enfeixava em suas mãos o poder judicial e religioso e as regras oficiais de culto.

Após a derrota frente aos Aymara, os líderes de ambas as parcialidades - menos o chefe supremo de Anantaipicala, que havia sido morto em batalha - organizaram uma expedição de fuga para o norte, rumo ao lago Puquinacocha (de puquina, a etnia dominante na região, e cocha, água grande), ou Titicaca, como passou a ser chamado a partir do Século XVI, com vistas a se refugiar nas ilhas sagradas ao meio dele: treze ayllus (clãs) com não mais de 200 famílias e seus animais, pertences, ferramentas e sementes.


Ilustração 11
Balsas de totora, utilizadas no lago Titicaca para transporte e pesca



Os
Aymara, contudo, prosseguiram em seu avanço e chegaram à borda sul do lago, dando origem ao reino de Lupaca (hoje Yunguyo, Juli e Copacabana, nas margens bolivianas do lago) e ameaçando invadir as ilhas em balsas de totora, vegetal existente na região e utilizado pela cultura Uro para construir frágeis balsas e moradias. Os refugiados nas ilhas não tiveram outra alternativa senão meter-se em embarcações e rumar mais ainda para o norte, desembarcando na região que hoje abriga a cidade peruana de Puno e embrenhando-se nas serranias a Noroeste.


Ilustração 12
Casas de totora, no lago Titicaca



A caminho de seu destino final (que ainda era ignorado), o fértil vale dos rios Urubamba (ou Vilcanota, ou Vilcamayo, respectivamente "Casa do Sol" e "Rio Sagrado", nas línguas
aymara e quechua) e Apurímac ("Grande Senhor que Fala", em quechua), ao centro do qual já existia a cidade de Cusco, os emigrantes detiveram-se aqui e ali, convivendo ou combatendo com outras etnias encontradas na região, sempre à busca de um local seguro que oferecesse condições para uma estável permanência.

Em Pacarictampu (de paq'areq tampu, "pousada original", que hoje deve corresponder à pequena cidade de Maucallactas, "cidade antiquíssima"), a 18 quilômetros do atual povoado de Pacarictambo, no Sudeste de Cusco, parecem ter vivido por muitos anos, tendo nascido ali Manco Cápac, futuro primeiro Inca.

Mas a região era pequena e pobre para oferecer terras férteis suficientes ao sustento e expansão dos emigrantes de Taipicala e, algum tempo depois, eles visavam locais mais amplos e férteis.

Assim, de acordo com inúmeros registros, em Pacarictampu houve uma divisão dos imigrantes em dois grupos: um deles, liderado por Ayar Cachi e com três ayllus, se dirigiu ao extremo norte da região (hoje Ollantaytambo, a 68 quilômetros de Cusco), enquanto o outro, liderado por Manco Cápac e com dez ayllus, se dirigia para o vale de Cusco, como se vê no Quadro IX.


Quadro IX
Rota de Manco Cápac, de Pacarictampu a Cusco
(Séc. XIII)




Nos conta o cronista índio Felipe Guamán Poma de Ayala
15 que "a cidade de Cusco, onde se estabeleceram, foi chamada primeiro Acamama, que quer dizer mãe da chicha (bebida regional feita de milho mascado e fermentado), sendo depois nomeada Cusco, ou seja, "umbigo" (parênteses meus).

E por que "umbigo"?

De acordo com Inca Garcilaso de la Vega16, numa versão até hoje encontrada na região e popularizada por guias de turismo e literatura mais superficial, "os reis incas dividiram seu império em quatro partes que chamaram Tahuantisuyo, o que quer dizer 'as quatro partes do mundo'. Puseram como ponto central a cidade de Cusco, que na língua particular dos incas [quechua] quer dizer 'umbigo da terra' e a chamaram com boa semelhança de 'umbigo', porque todo o Peru é comprido e estreito como um corpo humano e aquela cidade está quase no meio" (colchetes meus).

Entretanto, a versão de Garcilaso de la Vega talvez pertença apenas a uma série de lendas criadas e transmitidas gerações após gerações pela etnia Inca como forma de mitificar e legitimar o seu estabelecimento na região: não somente é inaceitável que se tenha nomeado a cidade de "umbigo do mundo" três séculos antes da implantação do Tahuantinsuyo, quando todo o "mundo" dominado pelos emigrantes de Taipicala se resumia a um pequeno vale, como existem indícios de que Cusco assim se chama desde perdidos tempos.

Outra versão, esta apresentada por Victor Angles Vargas17 em seu Historia del Cusco Incaico, nos faz crer que o nome da cidade se deu quando da chegada da etnia Inca à região: "a palavra q'osco tem a ver com a chegada de Manco Capác ao vale do Watan'ay, porque o marco que divisaram sobre a colina veio a se constituir em ponto central para as aspirações de conquista, e com a chegada de Ayar Auga, que se converteu em pedra, este se tornou marco de posse, e marco de posse em quechua se diz q'osco, palavra que permaneceu até hoje como o nome da cidade".

Por fim, o cronista espanhol Juan Diez de Betanzos18, soldado espanhol e intérprete de Francisco Pizarro (por seu rápido aprendizado do quechua) é bastante claro em sua Suma y Narración de los Incas, de 1551: ao descrever a cidade e sua origem, registra que "o povoado que os moradores chamavam Cusco desde a antiguidade e que não sabem o que quer dizer".



III

O vale de Cusco já apresentava pequena etnias que ali viviam, umas mais antigas e outras mais recentes: Hualla, Alcahuisa, Sahuasera, Antasayac, Lare e Poque (ou Puqui).

Os mais antigos parecem ter sido os Hualla, originários do sul da cidade atual, mais à frente confederados com os Sahuasera; a seguir vieram os Antasayac e os Alcahuisa (ou Ayarucho), os quais também se confederaram.

Dentre os Alcahuisa destacou-se Columchina, líder confederado que enfrentou Manco Cápac na invasão-ocupação dos emigrantes de Taipicala e exercia sua liderança a partir de Acamama, um vilarejo de não mais de 30 choças com famílias nucleares-simples e nucleares-compostas (ver adiante, na segunda parte deste ensaio, a estrutura familiar dos ayllus, as unidades clânicas andinas).

Columchina, por sua vez, substituíra Ayar Ucho, o qual estabelecera a etnia Alcahuisa na região e tinha seu totem ao Sul de Cusco, como a indicar que até ali chegavam suas terras e possessões e sugerindo, também, que Ayar Ucho não era irmão de Manco Cápac, o que contraria outra lenda tardia sobre o Tahuantinsuyo.

Já as nações Poque e Lare (como as chamam as fontes espanholas), viviam a Leste de Cusco.

Estas pequenas etnias, com que Manco Cápac se defrontaria ao chegar ao vale de Cusco, ao que indicam os registros de época estavam por ser assimiladas pelos reinos Colla, Ayarmaca e Pinagua - ou pelo reino Ayamarca-Pinagua, no qual os primeiros representavam Anan e os segundos Urin, as parcialidades desta etnia.

Este reino, por sua vez, teria sucedido aos Huari, hegemônicos na região até 1100 d.C., e os chefes Ayamarca recebiam o nome genérico de Tocay Cápac, detendo mais poder que os chefes Pinagua, genericamente Pinagua Cápac.

Os Ayarmaca tinham sua pacarina (de paq'areq, lugar de origem) a Noroeste de Cusco (hoje Yucai ) e provavelmente um de seus Tocay Cápac, chamado Ayar Auca por Manco Cápac, foi o fundador da cidade de Acamama e quem deu-lhe o nome de Cusco.

Manco Cápac, após conquistar o vale e ocupar suas terras, aliou-se aos Alcahuisa e fez construir na região dos Sahuasera o Inticancha ("cercado do Sol", em quechua), seu templo e vivenda, proclamando-se líder militar judicial, político e religioso a um só tempo e, portanto, não restaurando a diarquia.

Tomou como esposa as mulheres dos chefes oponentes mortos em batalha e as filhas dos chefes oponentes que sobreviveram, ordenou a ampliação da cidade conquistada, iniciou a organização de plantações e começou um hábil trabalho de convencimento ideológico que apontava os recém-chegados, auto-denominados Incas (título nobiliárquico que já vigorava em Taipicala), como enviados pelo Deus-Sol para ordenar e civilizar os aldeões e camponeses locais.

Tanto que, entre as lendas sobre o Tahuantinsuyo - embora não saibamos se incorporando parte da crença judeu-cristã, após a Conquista e a influência jesuítica espanhola -, uma reza o seguinte, de acordo com Garcilaso de la Vega19: "passado o dilúvio (e) cessadas as águas, apareceu um homem em Tiahuanacu, ao meio-dia de Cusco [forma típica européia colonial de denominar o ponto cardeal Sul], tão poderoso que dividiu o mundo em quatro partes e as entregou a quatro homens que chamou reis: o primeiro se chamou Manco Capác, o segundo Colla, o terceiro Tocay e o quarto Pinahua (...) Dizem que Manco Capác foi para o norte e chegou ao vale de Cusco e fundou aquela cidade e sujeitou os vizinhos e os doutrinou; e com estes princípios, dizem de Manco Capác quase o mesmo que temos dito sobre ele: que os reis Incas descendem dele. E dos outros reis não sabem dizer que se passou com eles, e desta maneira são todas as histórias daquela antigüidade" (parênteses e colchetes meus).




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