

As etnias que
antecederam os Inca
no Altiplano Andino

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De acordo com arqueólogos como o norte-americano John Rowlands Rowe 2, os primeiros habitantes da América do Sul, pertencentes ao tronco racial protomongólico e vindos da Ásia para América do Norte pelo Estreito de Behring em sucessivas ondas de migrações por volta de 40000 a.C., gradativamente ocuparam todo o oeste da América do Sul, da crista dos Andes à Costa do Pacífico, dando assim origem a uma sucessão de etnias e culturas distintas. Embora estudos recentes sugiram que o ser humano habita o continente sulamericano desde cerca de 50000 a.C., conforme a datação de testemunhos etnográficos encontrados na Região Amazônica brasileira, é inegável que as etnias que se desenvolveram na costa pacífica da América do Sul apresentam traços antropométricos análogos aos dos povos mongólicos (crânio com eixo ântero-posterior curto, membros superiores longos com mãos pequenas, pernas curtas com pés pequenos e dedos curtos, tórax expandido, cadeiras altas e cintura escassa, glúteos pouco salientes, escassa pilosidade corporal, cabelos negros, abundantes e resistentes à calvície e encanecimento, pômulos faciais salientes, osso nasal pouco desenvolvido ou saliente e olhos com prega palpebral adicional). Pessoalmente, esposo a possibilidade de ter havido migrações do Sudeste da Ásia para a América do Sul por volta da última glaciação, com o uso de embarcações e através de um cinturão de ilhas do Oceano Pacífico então emergidas (em função do rebaixamento do nível do mar), chegando à costa que hoje pertence ao Equador e dali se propagando para a América Central e a América do Sul em dois fluxos migratórios distintos. Em função disto, então, a população original destas regiões não teria derivado dos fluxos que, atravessando Behring, povoaram a América do Norte. Para o que interessa neste estudo, de qualquer maneira, em toda a região da Costa Pacífica e da Cordilheira dos Andes há indícios seguros da existência de etnias com algum nível de organização cultural desde 20000 a.C., numa sucessão ininterrupta que veio até meados do segundo milênio da Era Cristã. Entretanto, como todas estas etnias e culturas - as pré-incaicas e também a Inca, como veremos - até onde se sabe foram ágrafas, isto é, destituídas de formas escritas, ideográficas ou iconográficas de linguagem, os testemunhos de sua existência - surgimento, desenvolvimento e extinção - se constituem apenas em testemunhos etnográficos e arqueológicos obtidos em escavações realizadas desde os finais do Século XIX e através de crônicas colhidas junto à população local após o início da colonização européia, registradas principalmente por religiosos que acompanhavam as expedições de conquista. Assim, a despeito de a cultura Inca e muitas das que a antecederam terem apresentado um elevado nível de complexidade, não há registro seguro de se ter-se desenvolvido naquelas regiões linguagem escrita ou mesmo iconográfica para a preservação de experiências e conhecimentos. Bem verdade que o etnohistoriador peruano Vitor Angles Vargas, professor da Universidad San Antonio Abad na cidade de Cusco, Peru, lembra que o licenciado e cronista espanhol Fernando de Montesinos3 registrou no Século XVII ter existido no Peru uma linguagem escrita grafada em folhas de árvores e pergaminhos, a quelca ou qilcca, segundo esta versão proibida após uma peste ter dizimado parte da população; mas nada ficou preservado, porém, que confirme tal informação. Em toda a região hoje ocupada pelo Equador, Sudoeste da Colômbia, Peru, Noroeste e Sudoeste da Bolívia, Norte, Centro, Leste e Sul do Chile e Norte da Argentina, numa área que totaliza mais de um milhão de quilômetros quadrados de superfície e se situa entre os paralelos 3 e 36 de Latitude Sul, encontram-se fartos registros da existência de culturas pré-incaicas englobadas pelo futuro Estado Imperial Inca. Todavia, neste trabalho estarei voltado principalmente aos Andes Centrais (ver Quadros I e II), a parte da Cordilheira dos Andes que corta de Norte a Sul o atual território do Peru, pois nesta região é que surge e se desenvolve, assim como é a partir dela que se expande, a etnia Inca após 1200 d.C.
As regiões andinas
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Os Andes Centrais
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Já o Quadro III, estruturado pelo arqueólogo peruano Federico Kaufmann- Doig5, e que nos mostra o curso sucessivo do desenvolvimento das culturas que habitaram os Andes Centrais a partir de 8000 a.C., divide o processo cultural desta região até o início da colonização européia em duas Eras distintas:
Já a Era de Produção de Alimentos (5000 a.C./1532 d.C.), por sua vez, se divide em dois Estágios distintos : |
Sobre as ruínas de Chavín de Huantár, por exemplo, em 1554 o cronista espanhol Pedro de Cieza de León7 afirmou que eram "ruínas de gigantes e não de uma raça comum", tal a magnificência das obras e sua dimensão; como exemplos, entre seus monólitos mais espetaculares estão a Estela Raimondi e o Lanzón de Chavín.
Quando o cronista espanhol Vasques Espinoza visitou em 1616 as ruínas de Chavín de Huantár, na região central dos Andes Costeiros peruanos, obteve depoimentos locais que indicavam ter havido ali um centro de culto e romaria. Talvez por isso - e também como forma de exercer domínio, para implantar um sistema sócio-econômico com base em práticas agrárias intensivas -, a iconografia teocrática de Chavín tenha sido ampliada para outras regiões, dando origem a elementos visuais provavelmente destinados a favorecer o poder da cultura dominante. Estela Raimondi (Cultura Chavín)
A arte de Chavín, presente sob inúmeras modalidades (estatuária, pintura em tecidos, cerâmica e metalurgia, e.g.), parece ter se iniciado por volta de 2000 a.C. e se estendido até 200 d.C.; na sua fase tardia (200 a.C./200 d.C.) se modificou e terminou assumindo aspectos regionais, como se pode notar nas culturas Paracas e Vicus, entre outras: enquanto a cultura Paracas apresentava no Sudoeste peruano registros etnográficos semelhantes aos de Chavín, no que toca à mumificação e utilização de fardos funerários, trepanação de crânios, cerâmica, fabricação de tecidos pintados a mão e metalurgia, a cultura Vicus registrava ao nordeste do Peru a influência Chavín em peças de cerâmica e ouro (Quadro IV).
Predomínio Chavín (200 a.C./200 d.C.) ![]() Após a cultura Chavín ter se eclipsado - ou talvez exatamente por isto -, entre 200 d.C. e 700 d.C. surgiram nos territórios provinciais inúmeras expressões de perfil cultural próprio(Quadro V), dotadas de alto grau de perfeição artesanal, especialmente perceptível na cerâmica: Moche (ou Mochica), Nasca, Recuay (ou Huaylas) e Tiahuanaco .
Esplendor Artesanal (200 d.C./ 700 d.C.) ![]() A cultura Moche ou Mochica se espalhou na costa norte peruana, a cultura Nasca se desenvolveu na costa sul peruana, a cultura Recuay (ou Huaylas) ocupou a região norte dos Andes Centrais e Tiahuanaco surgiu no sudeste andino (hoje Bolívia). Tiahuanaco pareceu ser, para muitos cronistas, a mais antiga ruína de toda Região Andina (a despeito de ruínas como as de Chavín de Huantár e vestígios de construções da Cultura Mochica, descobertas e registradas tardiamente, suplantarem em antigüidade as de Tiahuanaco). A seu respeito, Cieza de León assim se manifestou em La crónica del Peru, de 15538: "tenho para mim esta antigüidade como a mais antiga de todo o Peru"; além disto, o cronista espanhol acreditava que Tiahuanaco jamais fora construída inteiramente: "e vê-se, pelo que se nota destes edifícios, que não foram concluídos".
Aliás, o templo de Q'alasasaya ("pedra parada"), em Tiahuanaco, com 135 metros de comprimento por 130 metros de largura, é realmente uma das maiores ruínas pré-incaicas. Com entrada principal por uma porta monumental e uma escada de seis degraus de pedra, abriga em seu setor Noroeste a Porta do Sol e tem à sua frente um templete semi-subterrâneo de 28 por 26 metros, cujas paredes estão revestidas de pedras esculpidas em forma de cabeças humanas. Vista geral de Tiahuanaco (Cultura Puquina)
Porta principal do templo de Q'alasasaya, em Tiahuanaco
Lateral do templo de Q'alasasaya, em Tiahuanaco
Templete semi-subterrâneo de Tiahuanaco
Detalhe interno do templete semi-subterrâneo de Tiahuanaco
Tiahuanaco-Huari (700 d.C../1200 d.C.) ![]() De acordo com Kaufmann-Doig9, "a estrutura mágico-religiosa Tiahuanaco-Huari, ou simplesmente Huari, deriva diretamente da tradição de Tiahuanaco do Altiplano, como o demonstram as imagens representadas em cerâmica e tecidos. O personagem central Tiahuanaco-Huari é, com efeito, a repetição da clássica figura do deus Tiahuanaco esculpida na Porta do Sol, copiada com apenas algumas variantes. Com a expansão Tiahuanaco-Huari se difundiram conceitos de urbanismo, de administração e de governo, nos quais talvez mais tarde se inspirou o Império Inca" (grifos meus). Porta do Sol, no Templo de Q'alasasaya, em Tiahuanaco
Como também registra Kaufmann-Doig10, "se estamos corretos no que tange aos motivos que impulsionaram a expansão Huari, a qual (...) pode ter se dado em função da necessidade de produzir uma quantidade cada vez maior de alimentos, a preocupação pela ampliação das fronteiras agrícolas outra coisa não foi senão um modo de atingir este objetivo principal. A ampliação da fronteira agrícola se deu em sentido vertical, através da exploração racional de diversos 'pisos ecológicos', mas também se deu em um sentido horizontal, através da ocupação de novas área aptas para o cultivo" (parênteses e itálicos meus). Ruínas de Piquillacta (Cultura Huari)
Ruínas de Piquillacta (Cultura Huari)
Ruínas de Choquepuq'uio (Cultura Huari)
Regionalismos (1200 d.C./1400 d.C.) ![]() E esta dinâmica voltaremos a encontrar no estabelecimento, expansão e consolidação hegemônica da etnia Inca, a partir da cidade centro-peruana de Cusco, dando origem em não mais de cem anos ao maior Estado Imperial da América do Sul pré-colombiana (Quadro VIII).
O Tahuantinsuyo (1438 d.C./1533 d.C.) ![]() | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||