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HUMANOS ANALISADOS ATRAVÉS DA ASTROLOGIA Mas o quê, em verdade, o astrólogo profissional oferece de informações ao seu cliente durante a entrevista devolutiva de análise clínica de sua carta astrológica natal? O quê, na verdade, pode ser tão rico a ponto de levar alguém a tomar profundas decisões sobre a própria vida e as formas de comportamento que vem adotando, como ocorre com quase todo mundo que tem sua carta astrológica natal analisada de forma clínica? Para discutirmos a partir daqui, então, alguns dos diferentes aspectos humanos que podem (e devem) ser trabalhados durante a análise clínica de uma carta astrológica natal, terei que expor um pouco do que apresentei em maiores detalhes em meu livro O simbolismo astrológico e a psique humana. É que apenas um entendimento alargado da variedade de pulsões do inconsciente humano e de como elas se mesclam em cada psique individual, determinando toda a vida da pessoa, permitirá perceber porque a experiência de ter sua carta astrológica natal analisada pode ser tão rica e tão transformadora para alguém.
NO INCONSCIENTE HUMANO Dizia Freud que para o psicanalista "não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas, (vendo sempre) um motivo suficiente em toda parte, onde habitualmente ninguém pensa nisto; (o psicanalista até aceita a existência de) causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica" (parênteses meus). O que ele queria dizer com isto? A afirmação, de 1910, na terceira das Cinco lições de psicanálise, pertence aos primórdios da Psicologia Contemporânea e assumia a hipótese, comprovada com o passar do tempo, de que o psiquismo atua sempre a partir de inúmeros objetivos simultâneos, razão pela qual o comportamento humano nunca é decorrente de uma causa só, seja ela qual for e esteja ou não a pessoa consciente da totalidade dos motivos que impulsionam seu comportamento. Isto ocorre porque o psiquismo está todo o tempo empenhado em satisfazer desejos (conscientes ou inconscientes) do indivíduo, tidos por si mesmo (consciente ou inconscientemente) como a melhor resposta a cada situação de vida; assim, da mesma forma que os diferentes instintos atuam para atender às necessidades associadas mais diretamente à esfera somática (ou corporal) do organismo e da espécie, como alimentar-se, manter-se a salvo de destruição física, proteger a prole e reproduzir-se, as pulsões atuam no psiquismo de forma a satisfazer desejos ou necessidades de ordem psíquica e emocional. São manifestações das pulsões, entre outras, os comportamentos rumo à busca de prazer, de convívio social, de expressão da própria vontade (ou desejo), de afeto (corporal ou não), de exposição ao meio de produtos mentais (conceitos, idéias, opiniões etc.) e de vivência dos fenômenos ainda chamados "espirituais" em nossa cultura, sejam os religiosos, sejam os derivados de percepções extra-sensoriais, como veremos adiante. E o que tem isto a ver com a astrologia? O que tem a ver Marte, Lua, Escorpião, Áries, Saturno, Vênus ou qualquer outro símbolo astrológico com isto tudo? É que com o passar dos séculos os principais tipos de comportamento humano induzidos pelas pulsões psíquicas foram descritos na astrologia através de seus símbolos, mesmo que muito tempo atrás não se soubesse nada disto, dada a muito recente sistematização da Psicologia; os homens mais antigos só tinham como elementos básicos de suas concepções os fenômenos que eles observavam nos indivíduos e pouco a pouco foram relacionando os símbolos astrológicos com as formas de comportamento percebidas, sem saber que estavam, na verdade, apontando a existência de causas inconscientes por trás de cada ação ou reação percebida e a múltipla combinação possível entre todas as pulsões existentes. Como sabemos hoje em dia, também através de Freud (em sua Primeira lição de psicanálise), que "num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes, sem que um 'nada saiba' do outro e que podem alternar-se entre si em sua emersão na consciência", ocasião na qual determinam as formas manifestas de comportamento ou as formas internas de pensar e sentir do indivíduo, serão os principais impulsos psíquicos básicos que discutiremos ao falar de Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Vênus, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e todas as possíveis combinações entre eles, os planetas, ou elas, as pulsões.
DE IMPULSOS PSÍQUICOS O Sol simboliza numa carta astrológica natal o padrão global de estruturação de ego da pessoa, isto é, daquela instância que é o centro da consciência e serve como ponto central de referência na psique para a organização de todos os recursos disponíveis ao atingimento dos objetivos e à satisfação dos desejos do indivíduo. Assim, compete ao ego de uma pessoa coordenar o conjunto de suas atividades psíquicas em quaisquer momentos da vida, mantendo a noção individual de identidade desta pessoa (noção de Eu) e possibilitando a tentativa organizada de satisfação dos seus desejos e necessidades; em outras palavras, o Sol (ariano, taurino, geminiano, canceriano etc.) indica o padrão global de resposta do ego da pessoa a eventos exteriores e vivências internas (emoções, sentimentos, conclusões, lembranças etc.), de acordo com predisposições inatas. Ao mesmo tempo, o Sol indica o "caminho" a ser seguido no trabalho de integração das outras instâncias do psiquismo (como vimos atrás, a sombra, a persona e o animus ou a anima), por mais distintas que estas instâncias pareçam ser, pois harmonização, organização de si mesmo e integração internas são impulsos psíquicos cujo símbolo é o Sol; por isto cada signo (o que determina um signo é a colocação do Sol no Zodíaco no momento exato do nascimento) apresenta uma forma básica própria de lidar com a realidade externa e interna, independentemente da variação nos detalhes de como isto é feito. Já a Lua simboliza numa carta astrológica natal o padrão básico de vivência emocional instintiva, também variável de pessoa para pessoa, dependendo do signo onde a Lua está colocada (e dos aspectos que apresenta), com o qual a vivência consciente do indivíduo se combina para que o todo psíquico possa se manifestar a cada momento da vida. (Aspectos são determinados ângulos geométricos estabelecidos entre um planeta e outros planetas ou entre um planeta e os pontos principais da Carta natal astrológica.) A Lua informa muito tanto sobre a natureza emocional genuína quanto sobre os padrões condicionados de resposta emocional que a pessoa desenvolveu no correr da primeira infância (indicando até, muitas vezes, o conjunto de experiências emocionais intra-uterinas que a criança atravessou e, de alguma forma, a modelaram emocionalmente). O terceiro planeta no Zodíaco, Mercúrio, simboliza para o astrólogo clínico o conjunto de funções humanas associadas às atividades de pensar, refletir, analisar e trocar informações com o meio ambiente. Simboliza, na verdade, o impulso básico humano no sentido destas atividades; porque, segundo a psicóloga junguiana norte-americana Maria Esther Harding, "em conseqüência da premência em considerar as experiências vividas, submetê-las aos 'olhos da mente' e transmiti-las a outros, os primitivos instintos humanos (e somente no caso dos humanos) foram submetidos a certo grau de mudança, tendo sido, em alguma extensão, privados de seus mecanismos involuntários. Gradualmente foram se subordinando às necessidades da mente, em vez de permanecer eternamente atrelados à não-psique, isto é, à vida animal". Este comportamento psíquico no sentido de absorver intelectualmente as experiências, processá-las racionalmente, descrevê-las através de algum código de comunicação e transmiti-las aos outros ou a si mesma (como quando a pessoa fala consigo, tentando entender melhor alguma coisa), é próprio das funções que Mercúrio simboliza numa carta astrológica natal. Vênus já nos oferece outra dimensão da experiência humana, qual seja a de estabelecer valores afetivos (e mesmo estéticos) para os fenômenos vivenciados e de receber ou expressar afetos, isto é, esta valoração. Quando alguém diz "disto eu gosto" ou "aquilo me incomoda", está estabelecendo, a partir do que experimenta como sentimento, um valor afetivo (ou mesmo estético) para os eventos, pessoas e objetos de que se cerca, quer expressando ou não o que sente.
Três observações cabem aqui: Por fim, quanto às funções envolvidas com a sexualidade e a sensualidade humanas, Vênus informa o padrão global de organização, numa pessoa, dos aspectos "passivos" de sua sexualidade e sensualidade (presentes em homens e mulheres igualmente, embora variando em grau de pessoa para pessoa): o desejo de ser desejada por seu objeto de afeto, donde as funções psíquicas que Vênus simboliza estarem diretamente ligadas à sedução ou às ações que objetivam tornar a pessoa mais atraente. Já Marte, neste aspecto específico, simboliza o pólo "ativo" da sensualidade e da sexualidade humanas, pois indica sempre o impulso de conquista do objeto desejado; ao mesmo tempo, simboliza também numa carta astrológica natal o impulso básico de manifestação de si mesmo no mundo exterior (assertividade) e de se envolver direta e pessoalmente com qualquer experiência de vida. Como os impulsos sexuais e de conquista do objeto de desejo derivam da mesma fonte instintiva, chamada pulsão sexo-agressiva, vontade e sexo andam juntas no psiquismo humano e numa carta astrológica natal. É que um poderoso impulso de se afirmar no mundo exterior reside na psique; este impulso, nos primeiros anos de vida, manifesta-se em uma de suas duas "especializações" distintas, a assertividade: é quando a criança tenta impor ao meio ambiente os seus desejos e vontades, buscando afirmar-se no mundo. Um pouco adiante, por volta dos quatro anos (e mais ardentemente na puberdade e na adolescência), este mesmo impulso manifesta sua segunda "especialização": o impulso sexual de conquista do objeto de desejo, sendo este objeto, em geral, quem parece prometer a satisfação da descarga de tensão sexual. Por tudo isto Marte indica em uma carta astrológica natal o padrão global de manifestação da assertividade e do impulso ativo sexual, enquanto características humanas que permitem a interferência do indivíduo no meio ambiente e na própria vida.
OS OUTROS Mas se na evolução da nossa espécie tais impulsos foram se estabelecendo como características do psiquismo humano, foi também se tornando obrigatório o "balanceamento" entre nossas necessidades individuais (fundamentais à sobrevivência de cada pessoa) e grupais (vitais à preservação da espécie). Afinal, o ser humano é um ser gregário e desde sempre viveu comunitária ou socialmente, razão pela qual o convívio harmonioso com os outros é um dado vital ao seu psiquismo. (Harmonia, entendida como a convivência equilibrada e produtiva de diferenças, e não como uma utópica inexistência de conflitos; aliás, a palavra equilíbrio vem do latim eqüi e librium, "pesos iguais", e pressupõe a existência de algum nível de tensão entre diferenças.) Do convívio social e das pressões individuais decorrentes deste convívio brotaram os impulsos internos de busca de justiça, de normatizar a realidade, de estabelecer inter-relações entre as partes e o todo e de construir explicações lógicas para estas mesmas inter-relações: nasciam com isto os impulsos internos para a religião, a filosofia, o direito e, mais modernamente, os "conhecimentos superiores", de espectro mais amplo de conhecimentos. (Por falar em religião, assunto ao qual voltaremos mais tarde em detalhes, cabe aqui lembrar Carl G. Jung: "a propensão espiritual aparece na psique também como uma força que urge, às vezes até mesmo como paixão genuína: não deriva de nenhuma outra pulsão, sendo em si um princípio sui generis".) Este conjunto de impulsos é simbolizado numa carta astrológica natal por Júpiter; não fossem tais atividades psíquicas, as manifestações da pulsão sexo-agressiva (simbolizada por Marte) dificilmente seriam canalizadas adequadamente ou submetidas a dogmas, tabus, convenções e códigos de conduta, necessários, todos, à vivência e sobrevivência grupal. Júpiter também simboliza o impulso básico de ampliar o espaço de experiências de vida, ou "horizonte pessoal", razão pela qual este planeta se "associa" aos movimentos de magnificação das coisas e dos processos através de longas viagens externas (largos deslocamentos da pessoa pela superfície terrestre) e internas (aprofundamentos especulativos e filosóficos), sempre como forma de ampliar o universo de referências básicas de vida. Mas nesta mesma faixa de experiências surgiu também, com o passar do tempo, outro poderoso impulso interno, qual seja o de privilegiar a realidade objetiva das coisas e dos processos, visando impedir que o indivíduo alargasse desmedidamente o seu próprio ego: simbolizado na carta astrológica natal por Saturno, esta instância psíquica representa o superego e seu conjunto de funções de contato com a realidade objetiva das limitações internas e externas vividas. Cabe lembrar aqui que superego é expressão criada por Freud para nomear a instância psíquica inconsciente que bloqueia ou censura na própria pessoa certas formas de comportamento e a admissão consciente de determinadas vivências internas pessoais, consideradas erradas, injustas ou não-éticas de acordo com o conjunto de padrões de comportamento absorvido durante a infância. Esta instância, sempre atuando no inconsciente como representante de uma natureza superior que deve ser respeitada quase a qualquer preço, é extremamente útil e necessária ao desenvolvimento adequado do ego, pois é o "teste da realidade" através de constante aprendizado, o que só se consegue com paciência, tempo e experiência (significados tradicionalmente associados a Saturno). Afinal, o ego, em seu processo de formação a partir dos impulsos informes do inconsciente, sempre se expõe a incontáveis riscos de dissolução frente a impulsos energeticamente mais fortes (porque afetivamente mais carregados); daí o surgimento de mecanismos de proteção como o superego, através das defesas e das regras proibitivas internas, permitindo ao ego se estruturar gradualmente e se opor sempre que necessário aos impulsos inconscientes mais profundos, que só "buscam" sua própria satisfação e exatamente por isto ameaçam a sobrevivência e a harmonia do todo psíquico.
OU TRANSPESSOAIS Além do indivíduo e do grupo, todavia, há uma dimensão de mundo que atrai a alma humana — ou psyché, como a chamavam os gregos — com verdadeiro poder de fascínio e sedução: a dimensão da Mente Impessoal, da Afetividade Impessoal e do Poder Impessoal, características do divino que habita em cada um de nós. Lembra o Budismo mahayana, uma das principais correntes do Zen-Budismo, que o estágio de desenvolvimento do Homem de Conhecimento Normal é atingido pelo conhecimento da realidade, mas o estágio do Homem de Conhecimento Superior é obtido apenas pela transcendência desta mesma realidade; esta transcendência, então, só é possível para o psiquismo humano através dos impulsos inconscientes simbolizados numa carta astrológica natal por Urano, Netuno e Plutão, os três planetas "exteriores" ou "transpessoais", impulsos estes próprios das camadas psíquicas mais profundas e, por tal razão, ainda informes e não pessoalizados. Algo deve ser comentado aqui sobre transpessoalidade, porém, antes que falemos mais detidamente destes planetas e dos impulsos vitais que simbolizam no psiquismo humano. As dimensões transpessoais apontadas por Urano, Netuno e Plutão são aquelas que se aproximam de possibilidades humanas até há bem pouco tempo sugeridas apenas pelas religiões ou pelas práticas espirituais: são os elos de ligação do psiquismo individual com a dimensão universal da Vida e ao mesmo tempo com todas as formas de manifestação desta mesma vida, estejam ou não ao alcance dos sentidos mais comuns como audição, tato, visão, paladar, olfato e cinestesia (do grego kinesiseisthesis, de kinesis, "movimento", e eisthesis, "sentido"; "o sentido do movimento" em geral atua nas articulações e tem por função informar ao corpo a posição de seus componentes no espaço em todos os momentos; este sentido é o que permite a você tocar o próprio nariz ou queixo com os olhos fechados, "sabendo" onde está sua mão e dedo a cada instante). Estes impulsos, os transpessoais, atuam de forma a permitir ao psiquismo entrar em contato com dimensões da realidade que não são perceptíveis ou descritíveis com nossas noções mais comuns de tempo e espaço, pois tempo, espaço e matéria, como os conhecemos, são convenções do nosso ego e não realidades únicas em si, como a física moderna não se cansa de demonstrar e veremos adiante; da mesma forma, a noção de individualidade que temos, como entidades separadas de todo o resto, é mera ilusão em níveis além daqueles do ego, já que é função do ego pessoalizar tudo com o que se conecta, através das funções egóicas representadas ou simbolizadas pelos planetas "pessoais" que vimos atrás: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus e Marte (e, certa medida, Júpiter e Saturno). Por isto, lembrando apenas que as Psicologias transpessoais buscam ultrapassar esta fantasia de separatividade que o ego humano mantém, veja o que diz o psicólogo norte-americano Abraham Maslow sobre a possibilidade de fusão com o Todo, em seu livro The farther reaches of human nature: "Há agora menos diferenciação entre o mundo e a pessoa... Esta se torna um eu ampliado... Identificar o que há de mais elevado no próprio ser com os valores supremos do mundo exterior significa, ao menos em alguma medida, uma fusão com o que não é o próprio ser". Para esta identificação com o Todo — mais possível para alguns, menos possível para outros, segundo sua disposição psíquica inata — existem os impulsos psíquicos transpessoais: graças à sua atuação, o indivíduo supera os limites da identidade egóica e "mergulha" num mar de indiferenciada participação no Todo, um Todo que é para o ego, num mesmo e só momento, aqui, lá e acolá, ontem, hoje e amanhã. Porque, apenas recordando que Freud descreveu este estado de indiferenciação como "sentimento oceânico" (embora o apontasse como um estágio imaturo do desenvolvimento psíquico), transcrevo aqui o psicólogo norte-americano Ken Wilber, um dos mais importantes teóricos das Psicologias transpessoais: "para onde quer que olhemos na natureza... não vemos senão totalidades. E não apenas totalidades, mas totalidades hierárquicas: cada uma delas é parte de um todo maior, que também é parte de um todo ainda mais amplo... Além disso, o universo tende a produzir totalidades de nível cada vez maior, cada vez mais abrangentes e mais organizadas. Esse processo cósmico geral não é senão a evolução... Como a mente ou psique humana é um aspecto do cosmos, seria de esperar que encontrássemos na própria psique o mesmo arranjo hierárquico de 'totalidades no interior de totalidades', da mais simples e rudimentar à mais complexa e abrangente. De modo geral, esta é exatamente a descoberta da psicologia moderna... Assim, numa aproximação geral, podemos concluir que a psique — tal como o cosmos — é multinivelada (pluridimensional), composta de todos, de unidades e de integrações de ordem sucessivamente mais elevada". Ora, se os impulsos psíquicos que vimos até aqui, simbolizados pelo Sol, pela Lua e por Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, só permitem ao ser humano apreender as dimensões da realidade mais afins ao seu ego, sempre unidimensional e limitado, e há dimensões ainda desconhecidas de realidade, como as ciências contemporâneas comprovam a cada instante, outras funções haveriam de existir para permitir a vivência destas outras dimensões da realidade que nos cerca, alimenta e faz viver. Tais funções existem graças aos impulsos psíquicos transpessoais, dos quais falaremos ao discutir Urano, Netuno e Plutão.
DO PSIQUISMO HUMANO Tradicionalmente, Urano, Netuno e Plutão foram considerados as "oitavas superiores" de Mercúrio, Vênus e Marte, respectivamente. Mas o que isto quer dizer? Em música, uma nota "oitavada" é estruturalmente a mesma nota (isto é, mantém a mesma relação proporcional entre a freqüência e o comprimento de suas ondas) mas vibra em uma freqüência muito mais alta. Como exemplo, um "lá" de oitava mais alta parece aos ouvidos humanos um som mais agudo do que um "lá" de oitava mais baixa, isto é, as ondas sonoras que o "lá" oitavado produz vibram com uma freqüência maior e produzem no ouvido humano uma sensação auditiva que chamamos de "mais aguda" ou "menos grave". Assim, se Mercúrio simboliza as funções humanas de percepção intelectual da realidade, de capacidade de pensamento sobre ela e de transmissão aos outros dos diferentes produtos mentais (impressões, conclusões, idéias etc.), Urano simboliza a capacidade de executar as mesmas tarefas num nível transpessoal: o impulso mercurial, de pensamento voltado a particularidades, processos e minúcias, encontra uma finalidade e uma abrangência maiores ao se transformar em "pensamento uraniano", superando então os limites convencionais do mundo material, que para o ego são sempre dependentes das quatro dimensões por ele definidas como altura, largura, comprimento e tempo. Urano simboliza a capacidade humana de ter flashes de intuição que desafiam abertamente os conceitos tradicionais de espaço e tempo, estando na raiz da percepção intuitiva de existir "algo mais" no Universo do que apenas os fenômenos acessíveis aos órgãos sensoriais mais comuns (e seus "prolongamentos artificiais", como os instrumentos científicos criados pelo ser humano para aumentar a sua capacidade sensorial). Não por outra razão Urano esteve desde sempre associado à magia, ao "estudo do oculto" e à paranormalidade que se manifesta através de efeitos objetivos (telecinesia, ou produção de efeitos físicos à distância, tiptologia, ou produção de ruídos à distância, desmaterialização e rematerialização etc.). Da mesma forma, Netuno é "a oitava mais alta de Vênus". Isto é, neste penúltimo planeta encontramos o símbolo do impulso transpessoal humano de valorização afetiva impessoal ou transpessoal, existente em todo psiquismo: desta forma, receptividade, senso estético, imaginação criativa (o "instinto do belo") e afetividade são "atributos venusianos" que se expandem para limites impessoais em Netuno, como se a psique, em seus estratos mais profundos, ansiasse por reviver o estado indiferenciado de emoções e sentimentos que ao mesmo tempo caracteriza o início da vida — a fase intra-uterina ou, para os espiritualistas, a fase espiritual pré-incorporação — e permite ao indivíduo viver tal estado no seio da coletividade como um todo. Netuno simboliza também as funções psíquicas que permitem ao ser humano a experiência de fenômenos paranormais de efeito subjetivo (telepatia, ou comunicação à distância, precognição, ou conhecimento antecipado de fatos e eventos, premonições etc.), assim como parece estar relacionado diretamente com as manifestações mais vigorosas de devoção espiritual. Tais "atributos", os uranianos e os netuninos, ou as funções de Mente Impessoal e Afetividade Impessoal, devem ser acessíveis ao consciente pessoal apenas à medida que o ego vá se estruturando; se não for assim, as funções egóicas de pessoalização, fundamentais para um pleno e produtivo contato com a realidade (ao nível que o ego trabalha), se comprometem, dando margem ao que conhecemos como surtos de esquizofrenia ou episódios psicóticos, dada a força destes impulsos e a invasão descontrolada dos conteúdos que eles mobilizam no campo da consciência. Caso, contudo, a emersão e a plena vivência destes impulsos se dê em um campo de consciência estabelecido e mantido estruturado pelo ego e superego (Sol e Saturno), torna-se possível ultrapassar o ego sem destroçá-lo e viver o que atualmente se chama de estados alterados de consciência, que operam em níveis mais elevados de energia psíquica do que o estado comum egóico de consciência, levando o ego a se fundir com o Todo sem que com isto o ego se desestruture ou tenha sua função pessoal e individualizadora comprometida. Mas ainda há um outro desafio, que merece todo o cuidado possível: o contato mais pleno do ego com os impulsos psíquicos que provêem do inconsciente coletivo (e se mantêm fora do campo de consciência graças a barreiras e defesas internas como o superego) permite também contatar um imenso "complexo de poder" de base fortemente instintiva, necessário para vitalizar a psique como um todo e dar ao ser humano condições de se manifestar ativa e assertivamente no mundo exterior. Este "complexo de poder" nada mais é senão a quantidade de energia instintiva que está à disposição da psique para seu trabalho de estruturação do conjunto de suas instâncias e funções, também chamada "libido", que é sempre uma energia indiferenciada de base instintiva e, por isto, se manifesta como Poder Impessoal. (Aliás, um dos principais motivos do rompimento entre Freud e Jung foi a insistência de Freud em atribuir à libido a função exclusiva de energia a serviço da sexualidade, quando Jung a entendia como energia a serviço do conjunto global das necessidades psíquicas, sendo orientada internamente de acordo com as prioridades do próprio psiquismo.) Descrito tradicionalmente como a "oitava superior de Marte", Plutão simboliza este impulso totalmente impessoal que reside nos estratos mais profundos do psiquismo humano: um complexo de poder atávico, indiferenciado e irrevogável, tanto quanto o era, na mitologia grega, Hades, o deus do mundo subterrâneo (Plutão, para os romanos). Basta lembrar que nem seus irmãos míticos — Zeus (Júpiter, para os romanos) e Poseidon, ou Posídon (Netuno, para os romanos) — desafiavam sua palavra, já que Hades (Plutão) representava a força que vigora no mundo das trevas do inconsciente Primordial e é mais poderosa até do que a de Zeus, Deus da Luz, da superfície da Terra e das realizações humanas. Em outras palavras, e tentando resumir este misterioso impulso da psique, totalmente mergulhado no inconsciente coletivo e além das possibilidades de plena compreensão pelo ego, o Poder Impessoal que Plutão simboliza é aquele impulso necessário para vitalizar a psique como um todo e mantê-la ativa no processo de individuação, isto é, de a pessoa poder vir a ser o que realmente é, além dos processos de condicionamento a que tenha sido submetida desde a concepção. O risco, todavia, é o ego ter tal poder impessoal contaminando suas funções pessoais, identificando-se com ele e julgando-se seu "dono" ou "portador", ocasião na qual a pessoa "enlouquece" ou "é possuída" e acredita "ter" os poderes ali pressentidos: aí então, atuando sob o comando de um ego estilhaçado por um impulso impessoal, o indivíduo atua como se fosse Herói, Mago, Seguidor, Demônio, Salvador, A Grande Vítima, Redentor ou outra imagem arquetípica qualquer, dependendo de qual impulso ou conteúdo transpessoal contaminou seu ego, despersonalizando-se e perdendo a possibilidade de evoluir ordenadamente, ao se deixar ofuscar por este poder ao invés de ser por ele fortalecido. Entretanto, Plutão também representa a Fênix, o pássaro mitológico (egípcio) que todos os dias reconstruía seu ninho apenas para vê-lo se consumir (e a ela também!) pelos raios do sol do dia seguinte: graças a esta energia infindável residente nas suas camadas mais profundas e coletivas, a psique individual pode destruir formas velhas e adotar formas novas, se necessário implodindo estruturas inteiras para que o ego atue a partir de novas e (até então) insuspeitadas possibilidades. De certa maneira, Plutão simboliza também a figura de Satanael, ou Satã, o mais bonito dos anjos, filho de Deus e irmão gêmeo de Emmanuel, que ao desafiar o Homem a questionar as Leis Divinas o impele a maiores valores, frutos da descoberta que é sempre filha do conflito entre opostos. Este "poder plutônico" é o impulso vital que, das mais profundas instâncias inconscientes, impele a psique como um todo a um movimento sem fim de morte e renascimento, em transição e adaptação constantes, através da integração de todos os seus componentes, sejam instâncias, sejam conteúdos, num todo orgânico vibrante e mutável. Mas que, ao "contaminar" as funções pessoalizadoras do ego (por fazer na carta astrológica natal aspectos com os planetas "pessoais"), atribui a estas funções as dimensões ou atributos de Mente, sentimento ou Poder Impessoal que na verdade elas não têm. Quando a astrologia tradicional afirmava que os planetas exteriores ou transpessoais (Urano, Netuno e Plutão) não tinham importância alguma na interpretação de uma carta astrológica natal, posto estarem ligados às necessidades de gerações inteiras e não a um indivíduo determinado, isto pertencia a um tempo em que nada se conhecia sobre o inconsciente profundo ou sobre as instâncias, pulsões e funções do psiquismo; hoje, ao contrário, se sabe que tais planetas são muito importantes, especialmente se eles estão em contato direto com os planetas pessoais na carta astrológica natal, por simbolizarem funções egóicas de alguma forma alteradas por conteúdos e impulsos muito mais profundos e potentes, que devem ter encaminhamento adequado pelo indivíduo (muitas destas situações veremos adiante). Antes, entretanto, de vermos como tais pulsões, funções e conteúdos inconscientes se mesclam na prática, definindo a estrutura e a dinâmica do inconsciente de uma pessoa em particular, vejamos outras duas categorias do psiquismo, as funções e as modalidades da consciência.
MODALIDADES DA CONSCIÊNCIA São de quatro tipos e duas modalidades as funções da consciência humana — as quais, como seu nome já o diz, servem para permitir que a consciência humana se exerça sobre os dados da realidade disponível. Porque nenhum dado da realidade parece ter para alguém uma importância genuína, enquanto não estiver na sua consciência!
De um lado, temos as funções intuição, sensação, pensamento e sentimento; de outro, as modalidades Introversão e Extroversão. Como exemplo, pense em audição, visão e paladar: tais modalidades da experiência sensorial são funções independentes umas das outras, não se convertem entre si e nenhuma é mais importante do que outra; cada uma tem seu papel, embora todas dependam da mesma fonte de energia, a libido. Assim também com as funções da consciência, que atuam no contato entre o ego e a realidade externa ou interna (eventos, objetos, outras pessoas e circunstâncias) ou entre a realidade interna da pessoa (os diferentes estados de todo o composto psicossomático, tais como emoções, sensações corporais, pensamentos etc.). Vejamos, então, as primeiras.
Toda pessoa tenta se orientar conscientemente na vida de acordo com aquilo de que toma conhecimento. As funções sensação e intuição são irracionais, isto é, não dependem de julgamento algum e trabalham apenas com o que está dado à percepção; já as funções sentimento e pensamento são racionais, pois avaliam e julgam o que está dado à consciência.
Duas observações: Como já dito antes, nenhuma destas funções é mais importante do que outra e todos os seres humanos as utilizam todo o tempo em sua apreensão consciente da realidade; o que varia, isto sim, de pessoa para pessoa, dependendo de sua carga genética, é a combinação destas funções em cada psiquismo individual, levando o indivíduo a utilizar predominantemente uma ou outra em seu dia-a-dia, de acordo com seu próprio tipo psicológico. Por fim, vejamos as duas modalidades da consciência, a Introversão e a Extroversão — apenas recordando que, para a Psicologia, extroversão não significa ser "alegre, divertido, falante, piadista ou brincalhão", como supõe o senso comum, nem introversão significa ser "tímido, quieto, pouco expansivo ou reservado". A energia psíquica posta à disposição da consciência se movimenta com mais naturalidade, dependendo do tipo psicológico da pessoa, na direção da realidade externa ou da sua própria realidade interna, tornando-a uma pessoa respectivamente extrovertida ou introvertida. Dito de outra forma, dependendo de sua carga genética o indivíduo tende a perceber o que está à própria volta (a realidade externa) com mais facilidade, se for predominantemente extrovertido; pela mesma razão, se for predominantemente introvertido, ele "naturalmente" dará mais atenção ao que percebe dentro de si mesmo. Usando uma metáfora óptica, é como se o extrovertido tivesse um "periscópio mais potente do que o endoscópio", ao passo que com o introvertido dá-se o inverso, levando um e outro a privilegiar — por perceber com mais facilidade ou maior clareza — os dados disponíveis em um ou outro nível de realidade, a externa ou a interna... Analisado isto tudo, então, vejamos o que uma entrevista de análise clínica de carta astrológica natal oferece a quem dela se vale como recurso de diagnóstico de personalidade, de auto-conhecimento e de alteração de formas pessoais de comportamento tidas pelo próprio indivíduo como inadequadas ou indesejáveis.
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