CAPÍTULO 3

ASTROLOGIA E PSICOLOGIA,
UM FELIZ E NATURAL CASAMENTO


Porque, em última instância, o que se passa no inconsciente de alguém determina sempre como esta pessoa lidará consigo mesma e com as situações de vida nas quais estiver envolvida ou em relação às quais estiver disposta a se envolver.

Esta noção, somente tornada possível após o surgimento do estudo sistemático da realidade emocional, dentro da Psicologia, inverteu radicalmente a visão que até então se tinha do ser humano e de suas manifestações de vontade, colocando em questão o que se pode chamar de determinismo e de livre arbítrio.

Com a constatação definitiva de haver instâncias inconscientes que determinam o comportamento, de base emocional e em geral mais poderosas do que as "escolhas", "conclusões" ou "decisões" praticadas conscientemente, evidenciou-se a necessidade de desvendar e interferir no cenário inconsciente para devolver a cada indivíduo uma autonomia maior sobre as próprias ações — muitas delas motivadas por paixões, medos, raivas ou ressentimentos, mesmo quando a pessoa se diz estar isenta de tais emoções ou sentimentos ao tomar decisões.

Mas como saber exatamente o que se passa no inconsciente de alguém, se a própria pessoa o desconhece?

Se, em outras palavras, o conteúdo inconsciente é inconsciente para ela mesma?

E mais ainda: como definir o que é uma tendência natural ou um comportamento condicionado?

O que determina e o que, por outro lado, afirma o livre arbítrio?



VONTADE,
ESTA CARACTERÍSTICA HUMANA

Ora, o que diferencia o ser humano de outras espécies terrestres é, acima de tudo, a possibilidade que ele tem de direcionar sua vontade pessoal.

Em outras palavras, a possibilidade de estabelecer para si mesmo um objetivo, reunir os elementos necessários para atingi-lo, mobilizar-se neste sentido e, todo o tempo, checar para ver se os resultados obtidos passo a passo não o estão na verdade distanciando do objetivo almejado.

Assim, "vontade" é igual a "desejo existente + objetivo visado + recursos necessários para o atingimento + direcionamento de ações + avaliação de resultados".

Colocado assim, parece fácil e simples; entretanto, observado mais de perto, vê-se que tal traço distintivo da espécie humana requer um nível de especialização de funções altamente sofisticado, que foi desenvolvido com o passar de muitos milênios e de inúmeras espécies vivas!

Requer perceber um desejo, assumir este desejo, definir qual objetivo o satisfaz, avaliar a situação, reunir as condições necessárias para atingi-lo, colocar em ação toda uma série encadeada de esforços, avaliar constantemente o que está sendo obtido e, sempre que preciso, alterar o sentido inicial ou a intensidade de cada ação, "corrigindo a rota" rumo ao alvo.

Entretanto, todos nós temos desejos conscientes e inconscientes ao mesmo tempo, muitas vezes contraditórios e por vezes até mesmo irreconciliáveis: sabe quando você diz que está com uma determinada "vontade" mas se pega fazendo exatamente o contrário?

Pois é, é disto que estou falando...

E aí, como falar de vontade?

Melhor colocando, de qual vontade falar, na verdade?

Por séculos o ser humano discutiu esta questão; os filósofos gregos escreveram tratados e mais tratados sobre o assunto, inúmeros foram os escritores europeus dos Séculos XVII, XVIII e XIX que teorizaram a respeito, religiões inteiras se estruturaram com base neste tema e até há bem pouco tempo se acreditava que "basta querer para conseguir".

Mas a prática mostra que não é bem assim!



AS DIFERENTES
VONTADES INTERNAS

Porque de nada adianta desejar alguma coisa conscientemente se inconscientemente se quer o contrário: mais forte que o desejo consciente, já que está fora da consciência e é, assim, autônomo, o desejo inconsciente se intromete, toma conta, obriga a ação e se impõe.

Com certeza, você já ouviu a frase "querer é poder!".

Pois é, este ideal voluntarista, que predominou por muitos séculos no pensamento ocidental, faz todo mundo acreditar que quem não consegue o que quer (pouco importa o que seja) não quis o suficiente ou estava enganado ao dizer que o queria.

Até que Freud e os primeiros psicólogos, desde os fins do século passado, demonstraram que sob o nível da vontade consciente residem instâncias psíquicas inconscientes com força suficiente para inverter o rumo das coisas sem que a própria pessoa o perceba; são os desejos inconscientes, atuando como vontade interior e "roubando" da vontade consciente o papel de principal definidora das formas de comportamento do indivíduo, independente de seu nível social ou cultural, faixa etária e sexo.

E se a psicologia freudiana demonstrou que mais poderoso do que o consciente é o inconsciente pessoal, a psicologia junguiana foi mais fundo e comprovou que sob o inconsciente pessoal quem domina mesmo é o inconsciente coletivo, uma somatória de conteúdos inconscientes que fazem parte da espécie humana e estão presentes em todo indivíduo!

Então, o ser humano pôde entender que é "duplamente determinado", muitas vezes até mesmo contra seus desejos conscientes: mais superficialmente por seu inconsciente pessoal; mais profundamente ainda, por seu inconsciente coletivo.

Um outro pesquisador da primeira metade deste Século, todavia, o geneticista húngaro Lipot Szondi , verificou a existência de uma "camada" intermediária no inconsciente humano, entre o pessoal e o coletivo, derivada de material genético transmitido familiarmente e compondo o que ele chamou de "inconsciente familiar".

Szondi comprovou, após mais de trinta anos de estudos em laboratórios de pesquisa genética, que existe a transmissão, de pais para filhos, de "memórias emocionais" derivadas de problemas fundamentais não resolvidos; segundo ele, todas as pessoas são também impelidas por conteúdos inconscientes resultantes de conflitos emocionais algum dia vividos por seus antepassados e não inteiramente resolvidos até o momento, razão pela qual foram transmitidos para as gerações futuras: assim, submetidas a "pulsões ancestrais" que atuam inconscientemente, as pessoas "buscariam" determinados tipos de experiência de vida para tentar resolver certos tipos de conflitos emocionais que seus ancestrais não puderam ou não conseguiram resolver na própria vida.

Como falar, então, de "vontade pessoal", se foi-se comprovando que toda pessoa atua sempre motivada por conteúdos psíquicos situados em quatro níveis simultâneos, três deles inconscientes (pessoal, familiar e coletivo) e apenas um consciente (a vontade racional)?

(Para quem estranhe a afirmativa da existência de "genes de memória", dois exemplos: quem já não ouviu falar do netinho que possui "manias idênticas" às do avô, por exemplo, sendo que este já estava morto quando o garotinho nasceu? E quem estranha que um músico tenha filhos ou netos também músicos, "passando adiante" o seu dom?)

Como falar com mais segurança, então, sobre o tipo de desejo que move uma pessoa?

Qual objetivo ela terá, afinal, se provavelmente nem ela conhece a totalidade de suas razões inconscientes, sempre determinantes de seu comportamento individual?

Sinceramente você conhece alguma mulher que queira conscientemente só encontrar homens que sejam brutos no trato com ela? Na verdade você conhece algum homem que só deseje não dar certo no emprego?

O que, então, faz com que aquela mulher termine apenas com homens agressivos e que este homem só encontre serviços nos quais não se adapta bem ou não se sente feliz?

Certamente desejos inconscientes, como a Psicologia moderna bem o sabe, que encaminham a ambos para escolhas bem distintas das que acreditam fazer!



A IDENTIFICAÇÃO
DOS DESEJOS INCONSCIENTES

Exatamente para isto, seguindo de perto a Psicologia contemporânea, a astrologia tem muito a oferecer ao ser humano: a análise clínica de uma carta astrológica natal oferece a possibilidade de se descrever em detalhes a estrutura e a dinâmica de um inconsciente humano e, portanto, identificar quais desejos e inclinações inconscientes ali habitam e quais deles (ou com qual intensidade) são conflitantes com os desejos e inclinações conscientes da pessoa.

Em outras palavras: definir quais motivações básicas residem em um inconsciente, vigorosas a ponto de poder interferir no comportamento de uma pessoa e até mesmo fazê-la se comportar contra a própria vontade consciente.

Podendo ser utilizada como instrumento de diagnóstico (do grego dia, "através de", e gnosis, "conhecimento") da personalidade global de uma pessoa em qualquer época e independente de sua idade, sexo ou nível cultural, a Astrologia Clínica permite não só a realização de diagnósticos de personalidade — através da interpretação de cartas astrológicas natais —, para definição de características pessoais, potenciais existentes e bloqueios emocionais instalados, como também uma profunda compreensão do que realmente motiva uma pessoa em seus relacionamentos, sejam eles familiares, afetivos, sociais e mesmo profissionais ou societários — através de recursos especializados como as sinastrias e as análises de mapas compostos (que veremos adiante em detalhes).

Mas a Astrologia Clínica oferece outro grande recurso de compreensão do que ocorre na vida de uma pessoa: a possibilidade de definir previamente, muitas vezes com meses ou até com anos de antecedência, como estará o seu psiquismo se comportando e o que a estará mobilizando em determinada época de sua vida.

Este trabalho, mais popularmente conhecido como "previsões", recebe o nome técnico genérico de progressões e pode ser efetuado de diferentes formas ou com o concurso de diferentes técnicas, dependendo da metodologia empregada pelo astrólogo profissional que o realiza ("progressões diretas", "trânsitos", "revoluções solares ou lunares", "progressões por arcos reversos" etc.).

Para sua melhor compreensão, vejamos uma a uma estas alternativas de diagnóstico e aconselhamento astrológico clínico.



PROGRESSÕES ASTROLÓGICAS:
O FUTURO NO PRESENTE

Quanto à interpretação de cartas astrológicas natais, veremos este tópico ao fim deste capítulo, já que este será o assunto principal de todo o restante do livro e então o abordarei em detalhes; entretanto, para compreender o que sejam as progressões, é necessário retomar alguns dos conceitos básicos discutidos até aqui.

Vistas superficialmente, as progressões parecem apenas exercícios de "adivinhação" ou futurologia sobre a vida de alguém, numa tentativa de prognosticar o que lhe estará acontecendo em determinada época e permitindo-o se prevenir contra eventuais infortúnios — ou, se for o caso, preparar-se para aproveitar ao máximo a "sorte" futura!

Um misto de astrologia de almanaque e cartomancia barata...

Uma observação mais aprofundada, porém, apontará o fato de que por trás de cada acontecimento da vida de uma pessoa reside o misterioso fato de que o seu inconsciente, de um modo ou de outro, "colabora": a pessoa atrai ou é atraída pelo evento, numa "teia mágica" (apenas porque mal entendida) de causas e efeitos. A sabedoria popular sabe disto à exaustão, e nos ensina com afirmações do tipo "ele procurou o azar", "ele construiu o destino com as próprias mãos" e "no fundo, no fundo, era isto o que ele queria...".

O que as progressões apontam, então? Com a análise de uma Carta natal astrológica e a identificação da dinâmica básica do inconsciente daquela certa pessoa, e a partir da verificação de como a sua Carta natal se combinará com as cartas de instantes futuros no correr do tempo (através do contínuo movimento dos planetas nos céus), o astrólogo profissional é capaz de prognosticar quais conteúdos inconscientes estarão mais ou menos ativados num certo período da vida da pessoa e, portanto, quais eventos ela estará mais fortemente inclinada a viver naquele mesmo período, já que tais tipos de acontecimentos permitirão que aqueles conteúdos inconscientes sejam manifestados.

Por exemplo, imagine que a carta astrológica natal de alguém indique a existência de muita raiva inconsciente, originária de certos processos vividos por esta pessoa na infância e nunca melhor resolvidos; quando o astrólogo "progride" a Carta natal e percebe que os conteúdos inconscientes ligados a esta raiva estarão mais emergentes num determinado período, ele poderá interpretar esta "progressão" sinalizando à pessoa a necessidade de mais atenção consigo mesma naquela época específica, enquanto a tal raiva não for melhor trabalhada, pois ela estará mais violenta ou irritadiça, propensa a brigas ou discussões sem razão aparente e inclinada a se envolver com situações de conflito ou até mesmo a provocá-las. Superficialmente, a pessoa estará "sujeita" a certos tipos de ocorrência, mas na verdade ela as estará buscando como pretexto para descarregar a tensão que a agressividade interna não resolvida produz!

Sabe aquela estória do "parecia que estava querendo caso..."?

Ou, em outro exemplo, suponha que uma carta astrológica natal indique que em certa época a pessoa estará mais facilmente iludida sobre a natureza real de seus sentimentos, pela vigorosa emergência de conflitos afetivos inconscientes; o astrólogo profissional aconselhará seu cliente no sentido de não tomar decisões afetivas drásticas naquele determinado intervalo de tempo (casar-se, se separar ou ter filhos, por exemplos), pois passado aquele momento o que parecia decisão racional poderá se mostrar apenas confusão emocional ou necessidade de suprir velhas carências nunca satisfeitas.

E, num exemplo ainda mais trágico, suponhamos que a análise clínica de outra carta astrológica natal indica que em certo momento da vida de uma pessoa uma determinada estrutura inconsciente que a predisponha ao consumo de bebidas ou drogas, associada a uma forte inclinação a depressões profundas, em função de episódios de infância ou em decorrência de herança familiar, estará mais ativado; de posse destas informações, e numa delicada linguagem acessível ao cliente, o astrólogo profissional sugerirá (eventualmente até mesmo enfatizará, em casos extremos como este,) a muito grande necessidade de a pessoa se manter afastada, ao menos naquele período específico, de bebidas, drogas ou produtos farmacológicos de efeito psicoemocional, pois a chance de ocorrer uma overdose como tentativa inconsciente de suicídio é grande.

Obviamente, uma progressão de carta astrológica natal também pode ser muito útil para identificar aspectos felicitadores: épocas de alargada capacidade pessoal de gerar empatia, épocas mais propícias para investimentos financeiros (por maior sagacidade comercial ou melhor capacidade de avaliação objetiva de situações), época de sex-appeal mais emergente (por intensa canalização de libido a serviço da sexualidade), época de melhor desempenho intelectual (por aumento da capacidade de estabelecer conexões entre informações distintas) etc.

Não importa qual, se conflitivo ou harmonizado, todos os conteúdos inconscientes do psiquismo humano estão sempre em constante movimento, querendo emergir para a consciência e ser integrados; neste movimento incessante e autônomo, independente dos objetivos conscientes do indivíduo, o inconsciente leva a pessoa a produzir ou a selecionar determinados eventos externos, como forma de viver experiências emocionais análogas ao conteúdo inconsciente que então está buscando expressão e forma.

Deste modo, o que as progressões astrológicas oferecem é a possibilidade de conhecer antecipadamente a qualidade a intensidade dos conteúdos que emergirão a cada fase da vida de um psiquismo e como fazer de cada um destes momentos uma oportunidade de crescimento e integração pessoais.



SINASTRIAS, ONDE DOIS
OU MAIS SÃO UM SÓ

Já o recurso das sinastrias, ou mesmo o dos mapas compostos (também conhecidos como composites, uma técnica mais recente e menos tradicional, embora bastante eficaz), permite ao astrólogo profissional identificar as razões reais das relações entre pessoas, para quaisquer finalidades (sócios comerciais, relações afetivo-amorosas, casamento, relações de amizade, sociedades de ocasião, partilha de interesses comuns etc.), como forma de orientar os envolvidos sobre como lidar consigo mesmos e com os parceiros, visando evitar os tão comuns erros de julgamento e de avaliação em parcerias.

Quem já não fez uma sociedade com o melhor amigo para logo após perceber que teria sido melhor continuarem apenas amigos?

Quem já não se envolveu afetivamente, às vezes até mesmo assumindo pesados compromissos pessoais ou sociais, para algum tempo depois descobrir que na verdade aquela relação nunca deixara de ser apenas uma grande amizade, sem os outros condimentos próprios de uma relação homem/mulher?

Ou, ao contrário, quem não rompeu num ímpeto uma relação amorosa para perceber, tempos depois, que teria sido feliz com aquela pessoa — e apenas não soubera administrar um momento mais difícil da relação?

Quem não contratou um funcionário ou subordinado, através de uma análise de currículo ou após uma curta entrevista, para descobrir em seguida que não suportava trabalhar ao lado daquela pessoa, pois com ela "o trabalho não rendia"?

As situações são inúmeras, os participantes são os mais diversos, mas a regra é uma só: nunca sabemos, realmente, o que se passa no inconsciente de quem está envolvido numa relação pessoal e o que determina efetivamente esta relação, seja ela afetiva, societária, de amizade, de trabalho ou de interesses compartilhados temporariamente.

Por isto nossos antepassados nos ensinavam que "para conhecer alguém é preciso comer uma saca de sal ao seu lado"...

Ora, não desanime, nem tanto!

Um bom trabalho sinástrico aponta as reais razões que determinam o estabelecimento de uma certa relação e, mais ainda, qual as tendências mais prováveis daquela relação, a curto, médio e longo prazos, dadas as características das pessoas envolvidas e o que cada uma provoca na outra sem mesmo o saber.

É que as verdadeiras razões de qualquer relacionamento são aquelas que se dão entre os inconscientes envolvidos, de acordo com os desejos inconscientes ali existentes e explicitados pelas cartas astrológicas natais individuais; analisando a combinação das cartas astrológicas natais das pessoas envolvidas, então, o astrólogo profissional pode afirmar com segurança o que realmente as atrai ou as repele entre si, o que as mantém juntas ou tende a afastá-las, o que cada uma encontrará de mais difícil no convívio com a outra e quais os potenciais daquela relação específica que podem ser despertados e melhor desenvolvidos.

E como fazer isto, durante a relação!

E se vale a pena efetivar, manter ou romper a relação, na verdade, após uma análise dos benefícios e desgastes mais prováveis, dadas as tendências ali verificadas e que, com grande probabilidade, se manifestarão com o correr do tempo.

Sempre dentro do perfil ou tipo de relação que está se dando ou por se dar; afinal, relações comerciais, societárias, empregatícias, afetivas ou apenas de envolvimento passageiro ("de ocasião") têm contornos próprios e requisitos específicos. Isto tudo é levado em consideração pelo astrólogo profissional no seu trabalho sinástrico, pois ele sabe que deve interpretar as cartas envolvidas de acordo com a intenção de seu cliente (ou clientes): trata-se de relação onde é essencial haver tesão e harmonia no convívio, como em um casamento? ou só se quer "cabeças que encaixem", como entre parceiros de trabalho intelectual? há objetivos análogos e confiança mútua, que é o que se espera fundamentalmente de uma sociedade, ou basta haver concordância temporária e específica de interesses, como numa "sociedade de ocasião"?

De posse destas informações, então, os envolvidos podem tomar as decisões que mais de perto atendam às suas reais necessidades e intenções.



O DIAGNÓSTICO
PESSOAL DE PERSONALIDADE

Por fim, dentro das alternativas de atendimento astrológico oferecidas pela Astrologia Clínica, temos a análise clínica de uma Carta natal astrológica, assunto sobre o qual nos estenderemos por todo o restante deste livro mas que merece aqui uma rápida descrição.

Todas as pessoas, ao nascer, já carregam em seu inconsciente determinados estilos fundamentais de comportamento psicoemocional, os quais compõem o seu tipo psicológico: são aqueles modos básicos de lidar com as diferentes situações da vida, decorrentes de material geneticamente disposto e tão diferentes de pessoa a pessoa que muitas vezes levam até mesmo dois irmãos a ser antagonicamente opostos em muitos aspectos desde bebês; em meu trabalho pessoal, eu denomino tais estilos fundamentais, altamente individualizados, traços estruturais de personalidade (porque provêem das estruturas psicoemocionais mais profundas).

Há um outro tipo de traço de personalidade, todavia, que não deriva diretamente do tipo psicológico individual e, sim, das características predominantes do meio ambiente daquela pessoa durante sua primeira infância e dos sentimentos que o contato com tais características do meio ambiente produziu; estes traços, a despeito de eu denominá-los traços conjunturais de personalidade (porque decorrem da conjuntura ambiental atravessada pela criança), têm tanta "força" quanto os traços estruturais na determinação do seu futuro comportamento global.

É que, por terem se estabelecido muito precocemente, tais traços marcam o conjunto global de comportamentos da pessoa, estabelecendo um perfil e determinando a forma de relacionamento dos outros com ela, com o que eles são constantemente reforçados.

Tais traços conjunturais de personalidade derivam do contato direto com três fontes fundamentais de estímulos presentes no meio ambiente infantil: uma figura masculina predominante (em geral o pai mas, por vezes, um avô, o padrasto, um tio, um irmão bem mais velho etc.), uma figura feminina predominante (em geral a mãe mas, por vezes, uma avó, a madrasta, uma tia, uma irmã muito mais velha etc.) e o modelo básico de relação vivenciado pelo pai e pela mãe entre si e de cada um com a criança no correr da sua primeira infância.

Será do percebido pela criança nestas três fontes, principalmente do ponto de vista emocional e de comportamento manifesto (o que interessa é como eles se comportam e o que realmente sentem, e não o que dizem pensar, desejar ou estar sentindo!), que a criança construirá modelos inconscientes de comportamento.

Porque a criança absorve a carga emocional de cada situação vivida por ela e introjeta em seu inconsciente estas cargas, acompanhadas de memórias inconscientes dos tipos de comportamento que ocorriam à sua volta quando tais vivências se produziam. Em outras palavras, "guarda" no inconsciente a memória de que "papai" ou "mamãe" se comportavam de tal ou qual forma frente a tal ou qual situação e se sentiam de tal ou qual maneira em tal ou qual ocasião; com estas memórias inconscientes condicionando suas formas de comportamento, futuramente a criança se comportará de forma análoga (porque condicionada) frente a situações também análogas, mesmo sem saber o que a está levando a se comportar daquela maneira!

Agindo, pensando e sentindo de forma a reviver o mesmo tipo de sentimentos que viveu quando criança, num movimento que Freud chamou de compulsão à repetição, o adulto termina prisioneiro de algumas poucas e determinadas possibilidades de resposta ou de comportamento: é que tais matrizes inconscientes permearão daí por diante todas as suas situações de vida, do desempenho sexual às formas de convívio, da atuação intelectual à manifestação de assertividade, das preferências afetivas à vivência de sua criatividade, da inclinação por esta ou aquela atividade religiosa à forma como se relaciona com o próprio corpo, e assim por diante, obrigando-o a agir, sentir ou pensar sempre de forma rígida, mesmo quando uma análise mais madura indica a necessidade de mudança...

Vejamos apenas alguns exemplos, apenas para fixar melhor estes conceitos.

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual o pai manifestava uma profunda depressão pessoal, enquanto a mãe se dispunha a se sacrificar por ele, embora reclamando por isto e se mostrando infeliz: se menino, esta criança futuramente tenderá à depressão e a sentir-se incapaz de auto-sustentação em momentos de maior tensão pessoal, buscando parceiras "capazes de qualquer coisa" para ajudá-lo, mas sempre reclamando e se sentindo infelizes; se menina, esta criança futuramente se inclinará a buscar parceiros que dela precisem "desesperadamente" todo o tempo, nem que para isto ela tenha de abrir mão de seus mais valiosos projetos pessoais, numa postura martirizada que só a infelicita mas a impede de alterar objetivamente a realidade.

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual, ao contrário, o pai atravessava uma fase de vigorosa expansão pessoal, mas tratava sua mulher como mera servidora de seus desejos e não como companheira de crescimento: se menino, esta criança futuramente tenderá a buscar parceiras sobre as quais impor todo o tempo sua vontade, mesmo nos momentos de maior tranqüilidade e segurança pelos quais atravesse; se menina, esta criança futuramente tenderá a buscar parceiros que tenham um vigoroso movimento de expansão pessoal, embora a mantendo à margem deste processo e apenas utilizando-a como "servidora".

Pense na criança que cresceu em um ambiente no qual o pai era "possuído" por constantes e profundos sentimentos de ser capaz de qualquer realização, obrigando todos os familiares a se sacrificar por todo projeto que ele tivesse em mente: se menino, futuramente esta criança acreditará ser capaz de arrostar qualquer desafio, mesmo quando existam evidências reais de fracasso, pouco se importando se em sua "luta" arrasta todos os familiares a uma vida de constantes imprevistos e sobressaltos; se menina, futuramente esta criança buscará "heróis vencedores" que sempre tenham em mente "projetos espetaculares", mesmo que ela tenha de com frequência abrir mão de suas próprias necessidades e desejos para "segurar a barra".

Ou pense na criança que cresceu em um ambiente no qual a mãe era presa constante de medos fantasiosos, ao mesmo tempo em que tinha acessos obsessivos de limpeza e, com isto, atraía a ira do marido, que nunca podia estar à vontade em casa: se menino, futuramente esta criança buscará parceiras ansiosas e medrosas, ao mesmo tempo que compulsivamente dedicadas a limpar e arrumar tudo o que estiver à sua volta, não o deixando em paz e nunca lhe permitindo maior liberdade doméstica; se menina, futuramente esta criança buscará parceiros que desarrumem com frequência o que ela está sempre limpando e arrumando, ao mesmo tempo em que será presa de verdadeiro pânico com as crianças ou o próprio companheiro, roubando-lhes qualquer possibilidade de espaço pessoal.

Tais situações, tão comuns, são apenas alguns retratos superficiais e parciais dos inúmeros padrões que se estabelecem no inconsciente de uma criança durante sua primeira infância (zero a quatro anos de idade) e passam a estabelecer daí por diante as suas formas de comportamento.

Porque todas as esferas da vida individual são decididas de antemão (quando comparadas às decisões conscientes, mais superficiais) pelo conjunto de forças e imagens dispostas no inconsciente; e por isto uma pessoa não obtém mudanças verdadeiras ou duradouras em seu comportamento (sexual, sensual, intelectual, afetivo, assertivo, criativo, familiar, profissional ou até mesmo espiritual) se ela não processar alterações profundas nestas disposições inconscientes, as suas reais matrizes de comportamento.

Alterações que, enfim, se tornam facilitadas pelo diagnóstico da estrutura e da dinâmica global de sua personalidade: com este diagnóstico, a pessoa e um eventual terapeuta (se for esta a sua escolha, como veremos no capítulo 7 deste livro) sabem de antemão "o quê e onde mexer", de forma a poder trabalhar com maior eficácia para que se recobre o equilíbrio algum dia comprometido e se escape aos ciclos viciosos que sempre tolhem as possibilidades de escolha pessoal.



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